FUI ENGANADO PELOS AMIGOS DO RUBENS JARDIM

Ontem os amigos e as amigas do poeta Rubens Jardim me convidaram para o seu velório na Avenida Doutor Arnaldo. Chegando lá, descobri que haviam me enganado: não era um velório, era um grande sarau em homenagem ao Rubens. O mais emocionante de todos os saraus. O homenageado, que pouco falava nos encontros que promovia, o poeta de enorme coração e suprema humildade, que em vez de falar muito preferia ceder o palco para todos ao seu redor, ontem nada falou. Não gritou, não esbravejou, não soltou palavrões, não se mostrou indignado com o que estão fazendo com o nosso país e o nosso povo. Estava calmo, sereno, nos ouvindo. O tempo todo mudo, observando e sendo observado. Peguei nas suas mãos, no seu rosto, beijei seu rosto e o abracei junto com o Sergio Ravi Rocha Odin, a Adnyce Oliveira, a Shirlene Holanda e a Marina Ruivo. O rodeamos para nos debruçarmos no seu peito neste abraço conjunto. Um gesto de despedida no poeta que abraçava a todos e que naquele momento estava de viagem marcada, convocado para continuar promovendo encontros em outras galáxias. Ontem não fomos ao velório em homenagem ao Rubens Jardim, não; fomos ao sarau preparado em segredo pelos seus amigos exclusivamente pra ele. De surpresa exatamente como quando fizemos um livro que a Editora Patuá publicou em sua homenagem e ele nem desconfiou de nada até a noite do lançamento. Ontem ele, que sempre homenageou tanta gente a vida toda, foi o centro das atenções. Dezenas de amigas e amigos em torno de um homem iluminado. Muitos leram seus poemas e textos de outros amigos e amigas, contaram histórias, cantaram, se emocionaram. Ninguém ouviu quando falei no ouvido dele o quanto ele foi e será eternamente importante pra mim e pra todos nós. Ninguém me ouviu também, porque não precisei mover os lábios para ser o portador de um recado do Cesar Augusto de Carvalho, um dos seus mais ilustres amigos, que estava longe e tristíssimo por não ter podido comparecer. O Cesar, que esteve sempre com ele em quase todos os lugares, neste último sarau ficou arrasado pela tristeza de não ir. O Arnaldo Afonso nos emocionou o tempo inteiro com o seu violão e o seu canto, muitas vezes acompanhado pelo imenso coral em volta, fazendo pulsar de emoção os corações da Ana Maria Leitão, esposa do Rubens, dos seus filhos, irmãos, netos, amigos… O amigo de tantos saraus, o Claudio Laureatti, não conseguiu conter as lágrimas ao chegar e ler alguns poemas. A emoção estava presente nos olhos e na voz do Luis Avelima, do Celso de Alencar, da Aline Araujo, do Fabiano Fernandes Garcez, do Eduardo Lacerda, da Pricila Gunutzmann, da Betty Vidigal, do Valdir Rocha, da Dione Barreto, do Carlos Galdino, do Jose Antonio Goncalves e de todos enfim que estavam ontem à noite ali na Avenida Doutor Arnaldo. Me perdoem, mas éramos tantos, que os nomes não caberiam neste espaço.

Rubens Jardim, o poeta que carregava o céu nos olhos, o vate inconformado e rebelde, o semeador de palavras, sempre iluminando os caminhos da poesia pra todos, ficou o tempo inteiro em silêncio, não sabendo – ou fingindo não saber – que era ele quem estava naquele palco, e não nós, era ele quem estava nos emprestando a vez e a voz, como na sua vida toda ele fez, qual um bandeirante da palavra.

Parafraseando um dos seus poemas, digo que ele veio, viu, viveu e, com a sua arte-manha, me “deu gás” pra continuar vivendo.

Um abraço de gratidão de todos os seus amigos e amigas, Rubão.

Lapa, São Paulo, madrugada de 15 de maio de 2024.

Lapa, São Paulo, madrugada de 15 de maio de 2024.


Descubra mais sobre PROTEXTO – Revista de literatura

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.