Espero a tradição milenar de um pénis sedento

Amigos, amigas,
Para quem ainda não conhece (e não imagina o que está perdendo) recomendo ler a jovem Hirondina Joshua |Maputo, 31 de maio de 1987|. Escritora/poeta moçambicana. Membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Redatora da Revista Incomunidade, curadora do projecto de literatura no M’benga – Artes e Reflexões, onde já publicou textos meus. Autora de Os Ângulos da Casa (prefácio Mia Couto. 1a. edição. Moçambique, ed. Fundação Fernando Leite Couto). Recebeu menção extraordinária no Premio Mondiale di Poesia Nósside, 2014.
Aqui, um pequeno aperitivo pra abrir o apetite, procurar e devorar a poesia e outros textos desta poeta que tanto admiro e de quem tenho a sorte de ser amigo.
Espero a tradição milenar de um pénis sedento.
Para vingar a febre mundana.
Há metafísica invisível no cimo do ministério.
Morre-se de várias formas: ou se ignorando os dias, ou lendo-se o interior dos séculos.
Cumpre-se a lei do movimento.
E ninguém pode ultrapassar a sina do inabalável.
A carne.
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O livro nasceu na veia. Foi então que partiu para dentro de outros mundos.
Eram negros os dedos do homem. A cabeça parecia um asfalto de guerra.
— Um analfabeto completo: bom para quem nasce. Tinha o elemento essencial para viver:
a madura obscuridade vista no plano superficial.
Foi então que nasceu a selvagem Letra, nas mãos e nos dentes ferozes.
A escrita. A voz superlativa. O canto cru. Tudo lhe nascera rapidamente como a febre do universo.
— E ele não via.
A cada dia ao invés de compreender, descompreendia o movimento sagrado do verbo.
Porque ele era seu próprio estrangeiro no estado urgente e repentino, e os seus desejos eram vítimas do caminho errante.
Podia-se dele imaginar tudo: menos a arte do líquido rubro.
E depois já não se podia jurar, tornámo-nos nessa linha criminal;
porque bastava ver-se. Ou ser-se cego.

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