A MEU PAI, SEMPRE

POESIA DO LIVRO 'CAMINHOS', de Otávio Machado


a meu pai, sempre.

você nasceu em Brejo Santo, Ceará, sertão no sertão
fundamentalmente você nasceu seco
poeira de sol rasgando entre cactos
facas do destino riscando os dias

algumas palavras povoam e atravessam a carne transformada
imagem que tenho nas fotografias e rostos que se apagam em papel

forma lenta e claridades
decifrando as formas
um pai transformado em outro
sua face na água como
num espelho permanente

seu destino de percorrer a existência sem existir
pele de cravos e espinhos
voz remota da nossa selva ancestral

fundamentalmente você é meu pai
esse pai que eu construo em raios quentes e desérticos que partem para verificar o amor

as consciências suavizam o ferro dos seus músculos
que chegaram nos dias de caminhos do sol
quando abrimos devagar a porta imensa que corta a pele
e essa luz que eu não sentia

quantos anos vieram depois
e muito melhores?
quando viajamos as ruas das nossas terras
e frestas de horizonte
que morrem nos dias antigos.

os anos não cessam e nem se calam
sapatos antigos e a tua figura de um homem andando
nas planícies da procura

beijo esquecido na face
das memórias que não existem mais
dança dos silêncios dentro do teu tempo

seu rosto claro e quieto
como uma janela que fecha a cada dia
na tarde de janeiro que se cala
em suas sete décadas sem nenhum
acontecimento exemplar

nada em posse do teu destino de
olhar fundo
talvez nada também em comum
entre nós
a não ser essas mãos que envelheceram juntas e tão semelhantes!

fundamentalmente teu destino era ser retirante e meu pai
principalmente meu pai

eu penso no seu rosto antigo
penso no seu rosto presente
penso no seu rosto esquecido.

penso que éramos mesmo
donos daquela árvore.

Fonte: feicebuque do Otávio Machado


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