RUA SEM PASSAGEM ( Leal Kostav )


Ontem cedo, antes do café esfriar, um tiro atravessou o noticiário e entrou na minha cozinha. Belo Horizonte, bairro Vista Alegre, rua estreita. Um gari de 44 anos, chamado Laudemir, caiu no asfalto enquanto trabalhava. Do outro lado do volante, segundo a polícia e testemunhas, um empresário irritado. Ele dirigia um carro elétrico cinza, desses que prometem empurrar o ar sem sujá-lo. O resto é a velha fuligem de sempre. Eu não conheci o Laudemir. Conheço, sim, o gesto dos garis quando grudam no para-choque do caminhão, o salto no meio-fio, o aceno que às vezes devolve o dia ao seu lugar. Conheço o barulho das garrafas de madrugada, a sineta invisível que chama a cidade para acordar. Sempre achei que um gari trabalha em silêncio, mas é mentira: o trabalho dele é o barulho que os outros fazem e largam na calçada. A vida inteira da gente posta para fora em sacos pretos, esperando a paciência alheia.

A notícia veio embrulhada no costume. Dizem que o empresário exigiu passagem. Havia espaço, contou a motorista do caminhão. Havia também uma ameaça: “Se você esbarrar no meu carro, vou dar um tiro em você. Você duvida?” Essas coisas que as pessoas falam quando subitamente a rua vira propriedade privada. Os garis tentaram acalmar. Discutiu-se. O barulho que vem antes do disparo não se escreve: é um silêncio incomunicável. Depois, o corpo no chão. O homem suspeito de atirar foi preso horas depois, em uma academia no Estoril. No perfil de rede social, ele se apresenta em inglês, desses cartazes que a gente plastifica e cola na testa para não esquecer: “Christian, husband, father & patriot”. Palavras grandes cabem em bio pequena. Fico pensando no trabalho que dá carregar cada palavra dessas pela rua: cristão, marido, pai, patriota. Quatro títulos que exigem duas mãos ocupadas — e nenhuma livre para puxar o gatilho. No papel dos negócios, o sujeito se dizia CEO. No papel da vida, é suspeito. A empresa soltou nota, quem nunca? As notas, no Brasil, são como lenços de papel: usadas uma vez e amassadas no primeiro bolso que aparece. Enquanto isso, a Polícia Civil confirma que abriu procedimento e inquérito para apurar a conduta de uma delegada — a mulher dele — porque, segundo depoimento do próprio atirador, a arma seria dela. Eu, que aprendi a respeitar o peso de uma arma, não discuto quem é dono; discuto o caminho. Uma arma que sai da gaveta de casa e vem passear na rua perdeu o endereço de volta.

Há qualquer coisa de irônico, e triste, nessa engrenagem: um carro elétrico, um caminhão de lixo, a tal modernidade que fala macio, vendida como higiene do futuro. Na propaganda, o progresso brilha. Na viela, um corpo cai. A energia limpa
não encosta na raiva suja. É curioso que uma bateria tão silenciosa carregue, às vezes, um trovão dentro do peito do motorista.

Perto da minha casa, o caminhão passa às segundas e sextas. De vez em quando, deixo uma garrafa d’água no muro, tapo a boca do saco de lixo para o gato do vizinho não fazer farra, e é isso: minha coreografia mínima de convivência. Nunca pensei em apontar nada para ninguém, exceto o dedo para agradecer. A rua é a nossa sala sem teto. Não tem dono. Ali, o copo descartável do meu almoço de ontem é irmão do entulho da obra do outro, e os garis são o povo que restitui um pouco de ordem ao que a gente desordena. Eles dão passagem, todos os dias, ao nosso excesso. O que não deu passagem, ontem, foi a pressa. Pressa de chegar aonde? Quem já não estancou atrás de um caminhão e respirou fundo? A vida pede marcha lenta em certos quarteirões; é o tipo de sinalização que não precisa de placa. E, no entanto, a gente insiste em atravessar com o farol vermelho na testa. O resultado, costuma-se dizer, “comove a cidade”. Cidade nenhuma se comove: cidades são paredes, viadutos, semáforos. Quem se mexe são as pessoas, quando ainda conseguem.

A prefeitura avisou que presta apoio à família. Eu imagino o peso dessa palavra, apoio, tentando servir de muleta para um chão que cedeu. Apoio não para relógio. Não ensina as horas de volta. Talvez amanhã um colega do Laudemir ocupe o lugar no estribo, como se um corpo trocasse de peça. Não troca. Nós é que nos trocamos, para não pensar muito.

O perfil do homem preso soma quase 30 mil seguidores. Eu me pergunto quantas curtidas cabem num estalo de dedo antes do disparo. A rua estava cheia de sacos, latas, cascas, cacos e gente. A rua sempre esteve cheia. Quem a esvaziou foram os olhos. É nos olhos que as ruas ficam estreitas. Sei que a polícia investiga; sei também que a justiça anda, mesmo quando tropeça. Não estou aqui para julgar além do que cabe a mim. Mas toda crônica é uma tentativa de varrer a poeira que sobe e não quer cair. Hoje, varro o chão de dentro: recolho as palavras que se espalharam no meu peito — cristão, marido, pai, patriota — e tento que elas voltem a significar algo que não precise de prova de fogo.

Sexta que vem, quando o caminhão apontar a esquina, vou perguntar o nome do rapaz que segura o saco na cintura. Vou dizer obrigado pelo barulho que limpa, por carregar o que eu não quero mais, por me lembrar que a rua é uma casa comum. E, se um carro encostar atrás pedindo passagem como se a vida fosse um aplicativo, vou abrir os braços e explicar, com toda a calma possível: aqui, moço, só passa quem entende que a pressa dos outros também tem direito de ir e vir. Pois, no fim das contas, é isso: as ruas não matam ninguém. O que mata é a vontade de chegar primeiro a lugar nenhum.

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Metrópoles: Após matar gari a tiros, empresário treinou em academia de luxo

Fonte: feicebuque do Leal Kostav


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