O SILÊNCIO DE VERISSIMO (Leal Kostav)

No final da tarde, quando a luz do sol se esgueira pelas cortinas da velha casa no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, é possível ouvir o som baixo de um jazz tocando. Talvez um Coltrane melancólico, daqueles que fazem os móveis suspirar memórias. No sofá, Luis Fernando Verissimo observa o teto, enquanto joga paciência no computador. Ao seu lado, Lúcia passa a mão nos cabelos brancos dele com a delicadeza de quem entende tudo sem precisar perguntar nada.
— Hoje você sonhou? — pergunta Lúcia, trazendo uma xícara de chá.
Verissimo pisca lentamente, como se tirasse a pergunta do fundo de um arquivo empoeirado. Não responde. Sorri. Ou quase isso.
— Tinha sax no sonho? — insiste ela, sentando-se na poltrona ao lado.
Ele ergue os olhos devagar, como se quisesse dizer “talvez”, mas sem se comprometer. Os dedos tocam levemente as teclas do teclado velho, onde reina o paciência, sua nova literatura.
— Eu falei com o pessoal da Zero Hora — diz Lúcia, quase num sussurro. — Perguntaram de ti. Ainda te chamam de mestre. Mas também de silêncio.
Verissimo ri. Os olhos dele têm uma faísca miúda, daquelas que restam acesas em brasa antiga.
— Dizem que tu não escreves mais… Que as palavras te escapam — continua ela. — Mas não sabem que tu sempre foste mais silêncio do que barulho.
Ele levanta a sobrancelha. Lúcia entende como “vai começar o discurso”, mas ele apenas aponta para o monitor.
— Paciência? — ela pergunta.
Ele assente com a cabeça.
— A vida virou um grande jogo de paciência, né, Luis?
Nada. Só o som do jazz e o clique ritmado das cartas se movimentando na tela.
— Lembra quando tu disseste que eras contra a passagem do tempo? — ela sorri. — Pois é. A gente nunca ganhou essa eleição, amor.
Luis fecha os olhos por um segundo. Talvez tentando escrever por dentro. Sempre escreveu melhor em silêncio, como se cada palavra viesse de uma caverna escondida atrás da timidez.
— Ainda ama o Inter? — provoca ela, com um tom divertido.
Dessa vez, solta um “hum” firme, quase um rugido, e ergue o punho num gesto contido. Lúcia ri.
— Ainda bem que isso o tempo não leva — diz, levantando-se com a xícara vazia.
Ao sair da sala, ela ainda ouve a voz rouca e quase imperceptível sussurrar:
— Escreve isso pra mim, Lúcia.
Ela para, olha para trás, os olhos úmidos.
— O quê?
— Que… tô bem. Só… calado.
Lúcia balança a cabeça, enternecida.
— Tá bom, meu cronista calado. Eu escrevo.
E no fim da tarde em Petrópolis, enquanto jazz e paciência dominam o ambiente, Lúcia se senta diante de uma folha em branco. Pela primeira vez, ela entende: às vezes, escrever pelo outro é apenas escutar o que não se diz.
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O escritor e cronista Luis Fernando Verissimo, de 88 anos, foi internado neste domingo (17) na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS), com um quadro de princípio de pneumonia. A informação foi confirmada pela família ao portal GZH.
( G1. )
Vrissimo sofreu um AVC em 2021, que afetou sua capacidade de falar e escrever. Ele já enfrentava problemas de saúde como mal de Parkinson e problemas cardíacos, além de ter retirado um câncer na mandíbula em 2020.

Esta crônica estava escrita há dois meses.

Fonte: feicebuque do Leal Kostav


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