O PAI
Foi numa terça-feira à noite que meu pai agarrou na ponta da estrela para viver a luz divina.
Todos os dias, o telefone tocava no fim do entardecer. É a hora que estou fazendo o meu chá, ou lendo algum livro no quintal de casa.
Eu atendia. Era ele: – Oi, filho! Tudo bem?
Dos 6 filhos, só eu mantinha esse diálogo a distância com papai. Ele sempre falava isso pra mim. A gente ficava horas e horas no telefone falando da vida, das maravilhas e dos horrores do mundo.
Do pai, herdei o amor pela planta. Esse gosto pelo que é verde, é um presente valioso que meu velho patriarca me deu ao longo da vida. Quando eu vim embora pra São Paulo, ele me deu uma samambaia e, até hoje, rego ela com o maior cuidado. E todos os dias nas nossas ligações, ele sempre perguntava por ela.
Mas também ganhei outros presentes de meu pai – aqueles que carrego para sempre no meu coração: os nossos passeios pelo parque da lavoura; a nossa ida e volta da escola a tarde; a nossa manhã de domingo no bar do pequeno, jogando totó e comendo linguiça frita com tubaína; a nossa prosa na cozinha enquanto cozinhava; as nossas idas de cavalinho na biquinha para buscar água; as nossas compras no supermercado; a nossa noite juntos na sala para assistir nossos filmes; o nosso primeiro e último passeio quando fomos ver o nosso avô; as declarações de amor pela minha mãe; as piadas; as cantigas; as rezas.
No finalzinho da tarde de terça-feira, dia 03/04/2023, o telefone toca como sempre, mas não era o papai que falava, era a minha mãe anunciando a morte dele.
Ainda tomo meu chá, no fim do entardecer, como de costume, leio meu livro no quintal e, o telefone não toca mais!
Lucas Dolher ![]()
São Paulo, 10 de agosto de 2025 ![]()
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Fonte: feicebuque do Lucas Ramos – https://www.facebook.com/lucas.dolher.9

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