
O DIA EM QUE A CONSTITUIÇÃO PEDIU UM CAFÉ (Leal Kostav)
Acordei com a notícia como quem pisa num lego esquecido no tapete: projeto de anistia para golpistas. Respirei. Um, dois, três… quatro cafés. Meu diálogo interior, que às vezes usa terno e gravata, veio ler a chamada com régua e esquadro: “Hã, perdão para quem tentou arrombar a casa? É isso mesmo?”. E o outro eu, o que usa chinelo e ironia, completou: “Talvez tenha sido só um mal-entendido. Eles queriam visitar os Três Poderes, mas o guia não apareceu.”
Na cozinha, a Constituição, que dorme dobrada na gaveta dos talheres — entre os garfos e a colher de pau — pediu um expresso: “Hoje vai ser longo”. Fui folheá-la com a delicadeza de quem mexe com santo de procissão. Não é que a moça tem cláusulas que não se dobram nem com reza brava? “Cláusulas pétreas”, sussurrou a colher. “Pétreas, sim”, confirmou a chaleira, soltando aquele vapor de quem já viu de tudo e não quer ver o replay. Do outro lado da rua, ouvi gritos. Pensei que era futebol; era hermenêutica. Tinha gente tentando convencer o quarteirão de que, se a Constituição não proíbe explicitamente, vale tudo: parque liberado para ursos, rinocerontes e, quem sabe, aquele tio que estaciona em vaga de idoso porque “já fui jovem demais”. O meu eu de chinelo sorriu: “Textualismo seletivo: quando o sujeito lê a lei como quem lê bula de remédio buscando só o efeito colateral que interessa”.
No elevador, encontrei a vizinha do 801, professora de História. “Anistia para golpista é tipo permitir spoiler no meio do filme”, disse ela, segurando a sacola de feira. “A graça é descobrir o final sem que alguém desmonte o roteiro.” O porteiro, que entende de enredos brasileiros, revirou os olhos: “Se deixarem, amanhã tem anistia para multa de trânsito cometida de ré, mas em alta velocidade”. Voltei para casa em passo de marcha cívica. O eu de terno abriu a lei fundamental como quem abre guarda-chuva: “Não é que o Supremo já avisou que há limites ao tal poder de clemência? Que isso de perdoar ataque à democracia não é clemência — é deboche?” O eu de chinelo interrompeu: “Clemência, sim. Com o Estado Democrático de Direito. Ele, coitado, tomou muita pedrada e ainda tá pagando psicólogo”.
Na mesa, o jornal repetia, grave, que perdoar quem ataca a Constituição é dessacralizar a própria Constituição. Dessacralizar — palavra bonita, de missa das nove. Imaginei a Praça dos Três Poderes como igreja vazia depois de romaria, bancos fora do lugar, flores pisadas. E o sacristão, cansado, dizendo: “Gente, não é porque a porta é pública que é para escalar o altar”. O meu diálogo interior fez assembleia. O eu de terno tomou a palavra: “Separação de Poderes também é linha de costura; se arrebenta, desmancha a roupa toda.” O de chinelo rebateu: “Roupa com rasgo no joelho às vezes é moda. Mas rasgo no fundilho, não dá.” A Constituição, ainda com espuma de café no bigode, pediu a palavra final: “Não me transformem em manual de autoajuda. Eu não prometo prosperidade instantânea nem desbloqueio de karma. Sou contrato — e contrato sério: se você me usa para me destruir, vira novela ruim. E sem final feliz”.
Na vizinhança, começaram as comparações com 1979 — a anistia de ontem tentando abraçar a de hoje, como se fossem parentes próximos. A professora do 801 explicou, didática: “Aquilo era outra coisa. Era remendo num tecido rasgado por baioneta. Agora, o tecido é esta roupa que a gente veste para sair na rua sem passar vergonha. Querem cortar o zíper em nome do conforto”. O porteiro assentiu: “E depois a calça cai no meio da praça. Aí é o Brasil pagando mico internacional, de cueca estampada”.
No fim da tarde, abri a janela. Brasília, lá ao longe, parecia aqueles castelos de areia que criança faz com balde — bonitos até a primeira onda. Meu eu de chinelo, já sem paciência, sugeriu: “Vamos anistiar, então, mas só o trocadilho ruim e a piada fora de hora. O resto, paga o preço”. O de terno endireitou a gravata moral: “Democracia não pratica harakiri. Não é esporte radical.” A noite caiu e a Constituição voltou para a gaveta dos talheres, lugar de honra e utilidade. Antes de fechar, piscou: “Se perguntarem por mim, diga que estou cansada, mas firme. E que cláusula pétrea não é coisa de museu; é dente de leite que nunca cai”. Sorri. Apaguei a luz.
No escuro, o diálogo interno fez sua última rodada:
— E se insistirem no perdão?
— Que tentem. A porta do Judiciário tem olho mágico.
— E a gente?
— A gente fica de vigília. Democracia, meu caro, não dorme sem deixar a luz da cozinha acesa.
Ulysses Guimarães: “Traidor da Constituição é traidor da pátria”
Fonte: feicebuque do Leal Kostav

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