Mnemônica
I —
Boa noite. Tentando preencher as noites insones, leio, penso, e escrevo… Estou escrevendo agora, desde os primeiros minutos desta noite de agosto. Enquanto o sono não vem. Se tem valor tudo o que escrevo? Pra mim, tem. E é o que me basta. Escrevo a esmo, sem as tantas referências usadas por muita gente que escreve. Porque há muito tempo sou incapaz de reter na memória a maioria do que aconteceu nos dias anteriores. E não adianta me dizerem que há técnicas para corrigir essa minha deficiência, comigo elas não funcionam. Talvez porque eu, sem me dar conta, não queira que funcionem. Boa noite.
II —
Sempre tento, inutilmente, entender o que escrevi de errado nas folhas do meu caminho. E nunca lembro a razão que me levou a rabiscar e preencher com inutilidades as trilhas porque passei. A memória trai, ou subtrai, não sei. Como acontece agora, nesta madrugada, refletindo outra vez como não sei o que fazer toda vez em que estou contigo: fico sem mãos, sem voz, sem a mínima condição de expressar o quanto a tua presença me faz bem. Sinto-me incapaz de te dizer tanta coisa que gostaria, enquanto os dias passam lentamente e as noites correm como o curso sem volta das águas de um rio. Meu peito estremece levemente, sem que possas perceber, e o coração me bate enquanto te olho, enquanto falamos naturalmente das coisas corriqueiras. E a dor de saber que não estamos sós, quando, te ouvindo, percebo que teus olhos viajam pra longe enquanto miram os meus. E até depois, ao te observar no distanciamento do sono e te imagino passando por jardins repletos de sóis, de luas e de estrelas por onde temo que nunca me levarias contigo… E a melancolia de sentir-me só do teu lado, só e incapaz, como se tivesse o mundo desejado e impossível ao alcance das mãos… das minhas mãos temerosas e incapazes de arriscar, de sair deste lugar-comum tão egoisticamente meu.
E os dias nascem, as noites chegam e tudo se repete, sem que eu saiba o que fazer pra te ver realmente feliz como me dizes que és. E passam as estações, os anos passam, e eu na repetida e infrutífera intenção de dizer algo que te faça sentido, algo que mude esta situação em que tu me olhas sem me ver. E vou passando, tal qual uma sombra diante de ti, um vulto que se dilui num segundo e que nada te diz, como uma flor seca caída, sem cores, sem perfume, sem vida…
III —
Ele sempre foi muito econômico com as palavras. Como se as guardasse para o momento oportuno, dia após dia. E este momento nunca chegava. As palavras querendo mostrar a sua utilidade, querendo a liberdade, e ele, de boca travada.
Olhando o relógio, como se aguardando a hora certa pra falar. E os ponteiros dando voltas e voltas inteiras, dias e noites, semanas, meses, anos… E a sua boca, sempre muda, os lábios espremidos.
E as palavras lá dentro, presas entre as cordas da glote. Os ponteiros do relógio girando. E ele, sem se dar conta dos olhares, dos sinais, dos gestos. Alheio.
Com medo de errar as palavras ou a hora de dizê-las. Quando se deu conta, a hora certa, se a houve, havia passado. Então, nem que quisesse falar, com as palavras certas ou erradas, já não adiantaria. As palavras estavam todas mortas, sabendo que não mais havia quem esperou tanto tempo para ouvi-las.
IV —
Ando cansado…
De tanto forçar a barra.
Como se eu fosse composto unicamente por uma parte física. Mas NÃO SOU NADA DISSO. Nunca fui! Nem pretendo começar agora. Sabe quando às vezes fico furioso comigo mesmo? É quando, num momento de fraqueza, me permito o RIDÍCULO de me deixar levar por atitudes que não agregam NENHUM resultado positivo, nem pra mim, nem pra ninguém. Principalmente pra mim. Imagino a imagem que tantas pessoas devem estar fazendo de mim agora…
Mas nenhum de vocês JAMAIS diria, como bem sei! Não sou como vocês. Não sou inteligente, espirituoso, divertido. Sou … só eu. Eu mesmo. Eu só. Assim. Sem sequer saber segurar por muito tempo tudo de bom que me é oferecido. Sem dotes culinários, sem saber escrever um bom poema, sem saber cantar ou dançar, sem saber fazer alguém sorrir, sem quaisquer outros méritos que despertem a admiração de alguém.
E também não me esforço para mudar isso, admito. Sou comodista! Quanto mais no meu canto, melhor. Quanto menos pessoas, melhor. Sinto-me vazio, e certamente seja porque sempre fui assim. Sem me envolver, à margem, camuflado, perdido. Mas eu escolhi isso. Pensando que quem sabe assim encontrasse um sentido mais real para a vida, em outro momento…. em outra circunstância…
V —
Preciso ainda dizer, antes de matar também as poucas palavras me restam, que vocês são pessoas muito boas, por tudo o que me expressam de bom. Que suas famílias lhes retribuam todo este amor que vocês dedicam a elas. Que sejam muito mais parceiros especialmente nos momentos de crise social. Que promovam carinho e bons frutos na convivência mais demorada. As palavras mostram grande poder. E podem nos levar a viagens incríveis. Viajei bastante e por recantos fantásticos com vocês. Observando e ouvindo cada um. Gratidão, é o que sinto por vocês, todos, por terem me proporcionado viver, ou vê-los viver tantas horas inesquecíveis. Parabéns pela magia que vocês fizeram emergir em mim com suas palavras, com seus gestos, com seus abraços, seus sorrisos. Me desculpem, eu sou assim. Eu ando cansado… de tanto forçar a barra. Como se eu fosse composto unicamente por parte física. Mas NÃO SOU NADA DISSO. Nunca fui! Nem pretendo começar agora. Nem sei o que farei daqui a 3 ou 4 horas, se saio de casa, sem direção, ou se fico aqui, até romper mais um dia. Mais um dia que, a depender do ânimo do espírito, a luminosidade do sol não diferencia de uma noite escura. Pra vocês, uns abraços.
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Remisson Aniceto


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