por Marcio Catunda
Luis Antonio é um dos grandes escritores espanhóis contemporâneos: poeta, romancista, memorialista e ensaísta, tradutor dos sonetos de Michelangelo, e autor de biografias de Aretino e de André Gide, entre vários livros publicados. É um clássico pos-moderno, especialmente pelos aportes que sua poesia restaura dos mitos gregos, no contexto erótico contemporâneo.
Tenho comigo uma parte da sua vastíssima obra. As biografias que esceveu: a de André Gide, em que se descreve o panorama literário francês do século XIX, narrando episódios da amizade de Gide com Proust, Wilde e Valéry, e sua infuência sobre o editor Gaston Gallimard, que o nomeou diretor da Nouvelle Revue Française, periódico que publicou os grandes escritores do século XIX da França.
O livro Biografía del fracaso tem a sua marca registrada. Ao comentar a obra e a vida de grandes artistas malditos, da estirpe de Caravaggio, Isidore Ducasse, Paul Gaugin, Arthur Rimbaud, Scott Fitzgerald, Luis Cernuda, Jim Morison e outros, ele se identifica com toda essa grei de espíritos de escol.
Quando jantamos no restaurante da calle de Ortega y Gasset, há cerca de três anos, falei de Nerval e Luis Antonio recitou El Dedichado. Recordamo-nos de Valéry e ele recitou as primeiras estrofes de Cimetière Marin. Em seguida, falou de Jean Cocteau, aludindo a La voix humaine, uma história de amor e desamor, e de Les Enfants Terribles, o drama dos alunos adolescentes do ginásio Condorcet. Dos franceses, ele passa aos italianos e recita Sandro Penna, cujos poemas traduziu ("l’aria di primavera invade la città/ Ai fanciulli la sera cresce un poco la età"). São versos que mos fazem recordar de Petrarca.
Depois do jantar, caminhamos pelas largas calçadas da calle Príncipe de Vergara, que Luis Antonio recorda haver sido uma via pública com uma passagem central para pedestres e calçadas estreitas.
Durante o mais recente encontro com Luis Antonio de Villena, no restaurante La Trainera, falamos de Stefan Zweig, que tinha 60 anos, quando, em Petrópolis, se desesperou e se suicidou.
Luis Antonio se lembra de que frequentou o restaurante La Trainera desde pequeno, quando foi estudante no Colégio del Pilar.
Pedimos “anchoas”. Ele evoca o nosso primeiro encontro, na Fundación Juan March, em 2009, quando ele falou sobre os dandys da cultura: Byron, Baudelaire e outros. Eu vinha de Gana, onde trabalhava na Embaixada, e já sabia que o meu próximo posto seria Madri.
Luis Antonio diz que esteve recentemente no México, na casa de um amigo e reitera o que já me dissera outras vezes: que tem mais amigos mexicanos que espanhóis em Madri. Conheceu a Colômbia em 2015 e descobriu um mundo novo, onde gostaria de viver, em vez da Europa, porque os colombianos são mais hospitaleiros. Queixa-se de que as editoras estão dedicadas a best-sellers, gente de TV, mulheres que foram locutoras ou novelas sem fundo. Exemplo: “A amante de Colombo”. É “simplon”, “una bobada”.
Declara que está cada vez mais misógino. Comento que na bibliografia de Sinfonia Italiana tem dois livros de sua autoria. Recordamo-nos de que estivemos com Lêdo Ivo no La Trainera.
Deu-me o seu primeiro livro “Sublime Solarium”, de 1971, escrito aos 18 anos. A contracapa tem um texto de Luis Alberto de Cuenca. Deu-me também a mais recente publicação: “Saturnália”, de 2024.
Falamos de literatura espanhola. Dos chistes de Juan Ramón Jiménez, que apelidou o amigo de Antonio Machado, poeta aportuguesado, porque os portugueses são tristes e Machado é nome de origem portuguesa. Esse gracejo tem certo encanto, não é pejorativo. Tampouco é negativo o que Borges disse de Lorca: “é um andaluz profissional”.
Para enfatizar que preferia Manuel a Antonio Machado, Borges disse a um repórter que lhe fala de Antonio, irmão de Manuel: ¿Ah, tenía un hermano?
Manuel se alistou no movimento nacional em Burgos, ao lado de Franco, não tinha opção: a zona era franquista. Foram por caminhos distintos. Antonio se refugiou em Colliure. Estava enfermo e viveu pouco tempo. A mãe morreu quase simultaneamente. O verso encontrado em seu bolso: “eses dias azules y aquel sol de la infancia”.
Foram momentos muito duros, os da guerra, permeada das atrocidades do fascismo e do comunismo soviético. Eisenhower fez campanha contra Franco. Em 1959, veio à Espanha avalisar Franco e, a partir daí, o ditador foi protegido dos Estados Unidos, em troca das bases militares. Assim é a política: há que buscar o menos mal; não existe o melhor. Os políticos são aproveitadores. Já não há políticos de cultura. Castelar era grande orador e Azaña, excelente escritor.
Enquanto Franco mantinha encontros com Hitler e Mussolini, faltava comida em Madri. A Alemanha mandava batatas.
Luis Antonio fala de seus amigos Jaime Gil de Biedma e Francisco Brines. A respeito de Biedma, escreveu “Retratos sin flash”, em que evoca a vida noturna de Madri da década de 1980. Biedma, nascido em Barcelona, em 1929, faleceu em 1990. Via-o de noite, por isso, sem flash. Francisco Brines, valenciano, faleceu em 2021, aos 89 anos. Conheci Brines em Madri e lhe dediquei um poema no livro em que homenageio 63 poetas espanhóis.
O paganista Luis Antonio não admite que Mensagem seja o melhor da poesia de Pessoa. Porque não concorda com a ideia de recobrar o império português, nem qualquer tipo de império. Tanto mais se tiver uma conotação religiosa. Sem considerar o aspecto esotérico da obra, refere-se ao fracasso do catolicismo, desde a Idade Média. Cita o caso de Sor Inés de la Cruz, que fez um comentário crítico a um discurso de Vieira e o arcebispo do México, que era jesuíta, a admoestou, e a forçou a estar metida no convento. Octávio Paz escreveu, em Sor Juana Inés de la Cruz o Las Trampas de la Fe, a respeito da punição sofrida pela monja, por violar a lei ortodoxa da religião.
Luis Antonio de Villena expressa em sua poesia um sensualismo libertino e um existencialismo bebido nos clássicos gregos e romanos. De Grecia e Roma, Villena questiona a finitude da vida, aprecia a velha libertade sexual, tão incômoda nas culturas semitas, e confessa que se sentiu sempre mais pagão que profundamente cristão.
Luis Antonio de Villena maldiz os clérigos que condenam o que até ele pode perdoar. Em seu livro de crônicas intitulado Decadencias, menciona a intolerância religiosa que sofreu Hipatia, no ano 415 da nossa era. Ela foi acusada de bruxa, porque ensinava a mais refinada filosofía neoplatônica.
Os poetas preferidos de Villena são Calímaco, Cavafis, Catulo, Horácio, Ovídio e Anacreonte. Alexandria é a cidade emblemática da sua utopia edênica. Lá, na Cidade dos Mil Palácios, viveram Calímaco, o dos “exquisitos” epigramas, que foi funcionário da famosa biblioteca, e o hedonista Cavafis, que escreveu, embriagado, versos plenos de diletantes prazeres sensuais. Constantino Kavafis frequentava as noites de bares e bordéis de Alexandria. É o boêmio que entra na casa do prazer e se alegra com esse regozijo promíscuo.
Catulo de Verona ensinou-lhe a preguntar sobre “el hechizo de la tentadora Belleza, que nos pone extasiados”. Ele se sente nos “bajos fondos de Madrid”, como Catulo sob o sol de Verona.
Com Quinto Horacio Flaco, o discípulo de Epicuro, ele aprendeu a caminhar sob o trino inaugural dos pássaros, “hacia la hierba y los pinos”, e aspirar apenas à tranquilidade do ânimo.
Ovidio, poeta de tom festivo e licencioso, tem sido apreciado por Villena desde os 14 anos, quando leu, em sua primera adolescencia, Ars Amandi e As Metamorfoses, deleitando-se com os fragmentos líricos que retratam a dissipada vida erótica de Roma e os hábitos dos poetas libertinos que convidam ao sexo e ao vinho: “¡Cuánta ciega noche contienen los pechos mortales!”
Luis Antonio de Villena não abre mão de suas órficas prerrogativas. É, ademais, sacerdote profano da belleza. Desde joven, gostava de fazer exibições de rareza. Dava conferências com vendas com manchas vermelhas nos pulsos. “Me dedicaba a hacer eso por número”, diz ele. Em 1966, se vestia como Oscar Wilde e fazia gastos enormes com jaquetas de veludo. Estava um dia, sentado, mirando em direção à rua, e um professor lhe preguntou: ¿que haces? – Esteticismo, respondeu ele.
Outro dia, pensou que, se pintasse as “patitas” e o bico do seu canário com purpurina dourada, seria a plenitude. O pobre pássaro morreu sufocado. Tinha uma lagartixa chamada Minerva, que brigava com o gato, que saltava na sua jaula. Ela tentaba picá-lo. Tinha também um escorpião, que comia moscas mortas. “Mete la mano al escorpión que el no hace nada”, dizia aos que o visitavam. Tem-no agora dissecado encima da cama.
Quanto à sua rebeldia inveterada, declara que toda vida que se vive plena é vida para escândalo e “todo es crepúsculo y todo lo que no embriaga y trastorna es mierda”. Alto de aventura, como Polibio ante Numancia, poderia dizer que naceu para as letras e só pede aos deuses otimismo para seguir vivendo. Recuerda que le dijo su tía: “saliste una noche de 1973 y todavía no te has recogido”.
SEMBLANZA DE LUIS ANTONIO DE VILLENA
Bajo las frías luces de una cátedra, el poeta, un astro delincuente, habla de los suyos. Canta al unísono con los vencidos y los rebeldes. Con los raptados por la pasión, bebe flores impuras.
Me identifico con él (y ellos), en contra del no atreverse. Como en la festiva Roma de antes de la fe española, sin cruces ni monasterios, el visionario mira las rosas de los sótanos.
Más que pregonar graciosos desconciertos, atesora obstinaciones libertarias; permanece roto en el alma, trasnochado, impregnado de quebrantos, delante del daño inevitable, irreverentemente libre, hasta el fin del universo.

Texto e imagem retirados do feicebuque de Marcio Catunda

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