Crianças esqueléticas. Já viu uma criança esquelética? Não uma magricela de Instagram ou de novela da Globo nos anos 90, não. Falo da anatomia da fome, da ossatura que rompe a infância. Um crânio com olhos – o resto é só pele grudada ao osso. Gaza virou isso: uma anatomia coletiva do desespero. Mas, como sempre, o Ocidente se mostra entretido demais com seus dilemas gourmet – se o croissant da esquina é autêntico o suficiente, se o celular com câmera de IA respeita a privacidade do gato. Enquanto isso, 12 crianças morrem de desnutrição em dois dias. Não é que morram de bala. Morrem por falta de fórmula infantil. Fórmula.
Evidente que Israel nega tudo. Israel sempre nega. Ou melhor: Israel transforma negação em arte, com o cinismo de uma potência que conta com a amnésia programada da imprensa e o aval moral do Pentágono. Bloqueiam alimentos, negam água, isolam médicos, bombardeiam corredores humanitários – tudo isso com a mesma naturalidade com que se constrói um shopping center em Tel Aviv. A ONU emite comunicados. E o que são os comunicados da ONU senão uma espécie de necrológio em papel timbrado? A cada semana, mais palavras, menos caminhões. Gaza precisa de 600 por dia. Recebe 28. Vinte e oito. E há ainda os armazéns. Armazéns cheios, trancados. Toneladas de alimentos mofando em paletes enquanto mães imploram, aos gritos, por um pouco de leite. A tragédia de Gaza não é a fome. A tragédia é a burocracia da fome. O sofrimento virou protocolo.
Os Estados Unidos, que adoram “liderar o mundo livre”, agora terceirizam a culpa para uma tal de Fundação Humanitária de Gaza, uma dessas entidades Frankenstein criadas para parecer neutras mas operam como braço operacional de exércitos coloniais. Uma espécie de ONG com botas. Desde que essa coisa começou, mil mortos tentando pegar ajuda. Um massacre por fila de arroz. E o mundo? Ah, o mundo. O mundo assiste com os olhos muito bem alimentados. Entre um reels e outro, alguém até compartilha uma imagem de Gaza com a legenda “pray for Palestine”. Mas orações não alimentam ninguém. Nenhuma criança deixa de morrer por um story com filtro sépia. Estamos diante de um novo tipo de guerra: a guerra contra o metabolismo. Atacar a digestão como tática militar. Gaza é uma câmara de gás invertida – não se mata mais com veneno no ar, mas com o vazio no prato.
E depois vêm os moralistas do Ocidente, com sua ética pronta, reclamar de protestos nas universidades, de cartazes em solidariedade, de slogans nas ruas. Para eles, dizer que Gaza é um campo de extermínio moderno é exagero retórico. Pois bem: visitem um necrotério infantil com trinta e três corpos de famintos em dois dias. A retórica, nesse caso, é o cadáver.
Enquanto isso, Israel sorri nos salões diplomáticos, como um banqueiro em dieta cetogênica: magro por escolha, não por cerco. Gaza, hoje, é o estômago do mundo. E o mundo, cínico, se recusa a digeri-la.
**
(Aviso: Constante verificação de plágio direto ou indireto deste texto através de ferramenta freeware. Comprovado com print, será feita a ata notarial em cartório para as providências legais cabíveis.)

📸The Guardian
Texto e imagem retirados do feicebuque do Leal Kostav, com sua autorização.

Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.