Quando a emoção pede palco

DESCOMPASSOS, peça de Angelo Mendes Corrêa

Não sou crítico de teatro ou de qualquer outra forma de arte. Não tenho técnica, nem pretensão. Tenho, apenas, um coração que se comove fácil — e quando transborda, pede papel, pede palavras.

Foi assim com DESCOMPASSOS, peça escrita pelo professor e jornalista Angelo Mendes Corrêa, encenada em um pequeno apartamento no centro de São Paulo. Fui convidado para a estreia mas não pude ir porque estava viajando, então, assim que retornei fui imediamente me redimir deste pecado.

Mesmo sabendo da competência e da intimidade do jornalista e professor Angelo Corrêa com a palavra escrita e falada, cheguei ao local esperando por mais um espetáculo como tantos outros, e fui aos poucos percebendo que estava enganado.

Uma pequena sala, duas cadeiras, banquetas e almofadas enfileiradas nos cantos, um espelho e pequenas luzes dispostas com precisão. Os vinte espectadores sentados em volta dos atores, com o privilégio de uma proximidade que sem dúvida em breve não haverá, depois destas primeiras apresentações. O dramaturgo Alcides Nogueira estava presente, com seus experientes olhos atentos no desenrolar da peça.

Um cenário simples, mas pensado para dar suporte aos dois atores — Rodolfo Lima e Márcio Louzada — que, a cada gesto, rompiam limites invisíveis, fazendo o espaço crescer até caber a vida inteira lá dentro.

Desde o início, os movimentos corporais e os diálogos sussurravam como lâminas geladas cortando a pele, mostrando feridas tão bem conhecidas – e sentidas, mas ocultas pelo medo e pelo desconforto. E essas mesmas lâminas se alternavam, como se saídas do fogo, encostando-se na pele e fechando as feridas depois de curá-las.

E enquanto assistia, pensei na liberdade —
a de expressão e a dos afetos — do direito de escolher com quem caminhar lado a lado, no mesmo compasso, ou de romper o ritmo e seguir, buscando outra melodia para os caminhos da vida.

Porque amar também é isso: ora compasso,
ora descompasso, mas sempre de braços com a liberdade. E toda liberdade, quando vivida por inteiro, tem a beleza de uma cena bem iluminada, de um palco que não prende — liberta.

E eu, no final, pensando: logo DESCOMPASSOS encontrará palcos maiores, plateias cheias, aplausos longos e apaixonados.

Mas preciso admitir, como sempre faço: eu não escrevo crítica. Escrevo emoção.
E o que vivi esta noite no centro de São Paulo não coube em mim. Extrapolou. Por uma hora, aquele pequeno apartamento me pareceu o maior teatro do mundo.

Parabéns e um abraço a todos os envolvidos nesta produção.

Remisson Aniceto
S.P. (08/09/2025)


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