´JOSELITO – O PEQUENO CANTOR`

“O meu filme favorito não é Citizen Kane, nem 8 1/2, nem O Nascimento de Uma Nação, nem Sunset Boulevard, nem essas coisas assim. O meu filme favorito é Joselito, O Pequeno Cantor: vi-o, sem exagero, mais de cinquenta vezes, noites seguidas, projectado num lençol contra uma parede, ainda hoje o sei de cor, canções incluídas, porque era o único que havia no Chiúme, um buraco nas Terras do Fim do Mundo, em Angola, e todas as noites a companhia que lá estava, incluindo eu, é claro, nos regalávamos com aquela obra prima, num lugar paupérrimo, miserável, isolado de tudo, na fronteira com a Zâmbia. Nunca vi nada mais miserável que o Chiúme, onde passámos meses em condições sub-humanas, de que não me apetece falar, e Joselito O Pequeno Cantor era o momento mais feliz dos nossos dias. Ali estávamos em peso, embevecidos, sentados em tijolos ou tábuas, a vibrar da emoção do prazer estético. Claro que havia guerra, claro que havia solidão, aquilo de que eu tinha mais saudades, não sei porquê, não era da família nem de Portugal, era de cálices e cortinas (também tinha, palavra de honra, saudades de alcatrão, nunca pensara vir a ter saudades de alcatrão mas tinha, como também tinha saudades de tapetes, por exemplo) e, no entanto, o prazer da Arte, neste caso do cinema, neste caso do extraordinário, do magnífico, do salvador Joselito O Pequeno Cantor, ajudava-me a viver, a suportar o horror das noites, o sofrimento, a perspectiva da morte, a solidão. A Arte, a grande Arte, é de facto uma coisa miraculosa: ajudava-me a caminhar em equilíbrio sobre os membros posteriores e a aguentar mais ou menos a crueldade, a violência e a miséria.

As Terras do Fim do Mundo nem sequer eram bonitas: eram uma espécie de planície infindável onde rapazes mal alimentados, mal dormidos, mal tratados iam aguentando o tormento dos dias: recordo-me de ter três calendários, nos quais ia desenhando a cruz de cada dia que passava, o calor das tardes, o frio das noites, os doentes, os feridos, etc.

(ponham o que quiserem no etc.)

na esperança, muitas vezes pouca, de conseguir voltar um dia ao meu País. É difícil explicar esta experiência a quem não passou por ela, explicar a atroz dimensão deste pavor sem nome que, após o jantar, e é precisa uma certa lata para se chamar jantar à lavadura que comíamos, lá vinha Joselito o Pequeno Cantor reconciliar-nos com a vida. Apaziguados, felizes, vivíamos, numa espécie de encanto, as doces aventuras daquela divina criança e o seu talento amorável dava-nos, diariamente, a coragem necessária para continuarmos naquele morredouro de miséria. O que pode a Arte, o que pode a beleza, o que pode a profunda humanidade de um grande filme, que nos dava coragem, serenidade, paciência, força de viver. E vivemos. E voltámos. Mesmo aqueles que não voltaram voltaram. E, também graças a Joselito o Pequeno Cantor, ainda estou aqui. E tornei a ver tapetes, cálices, alcatrão. E toalhas de mesa. E toalhas de banho. E talheres de peixe para o peixe e talheres de carne para a carne. E mulheres com baton e sapatos, que falavam um português igual ao meu, eu que não seria capaz de viver com uma estrangeira porque não geme na minha língua nem se zanga em palavras que oiço desde que nasci. Há mulheres que, zangadas, ficam tão bonitas. E depois é óptimo quando a zanga lhes passa e os beijos chegam a pouco e pouco antes de virem todos ao mesmo tempo. E uma boa parte disto, se por acaso o tiver agora, devo-o, sem dúvida, a Joselito. Não sei o que foi feito dele. Deve ser agora um senhor idoso mas conserva toda a capacidade de me fazer feliz. Só que vive no Chiúme, numa parede ou num lençol e o Chiúme é o cu do mundo e portanto como chegaria eu lá para abraçá-lo? Aqui há pouco tempo recebi um telefonema de um camarada meu, o alferes Eleutério, que estava comigo quando me anunciaram o nascimento da minha canhica pela rádio. Canhica é menina pequena em língua Bunda. Encontrei-a este domingo, depois do jantar, na rua. Aumentou de tamanho mas o que me veio logo à cabeça, imediatamente, sem pensar foi

– A minha canhica

e surgiu-me, claro, a genial canção

Doce cascabeles leva mi caballo

Por la carretera

e eu encantado, feliz, na noite subitamente habitável de África. Se por acaso algum cinema aqui desse o filme juro que te levava a vê-lo. E, claro, não tenho a menor dúvida, havias de adorar. A minha filha de olhos verdes que começou a andar em Angola. Quantas meninas se podem gabar disso? Em Angola, filha, no jango, perto de dúzias e dúzias de mangueiras enormes, e depois tu ao meu colo e eu, o teu caballo, a levar-te, num galope elegantíssimo, para o jango da messe.”

(Publicada na VISÃO, em 17 de Novembro de 2016)

Conteúdo copiado do feicebuqque da Emilia Vicente


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