…. eu posso lembrar do cheiro e das cores do tormento. Eu posso lembrar do tom acinzentado das vozes, dos gestos violentos, dos passos das botas negras e lustradas pisando sobre o nosso chão. Posso lembrar daquelas pernas, vestidas de selva, que se agigantavam diante de meus olhos atônitos, diante de meu medo. Ainda posso lembrar das metralhadoras apontadas para nós.
Eu posso lembrar até de algum constrangimento, de alguma vergonha nos olhos de alguns soldados, que quase fechavam os olhos em nos apontar suas armas. Mas, a obediência era cega e silenciosa.
Nesse abril de silêncios, minha mãe Luiza, eu, minhas irmãs e meu irmão, ficamos no escuro e sob a mira de metralhadoras. Estávamos lá, no escuro do escuro, no medo do medo. O tal bunker que eles alegavam existir era o porão de nossa casa, a casa rosada. Os militares, vestidos com uniforme da infantaria de selva, invadiram a nossa casa com fúria. Ainda posso sentir o cheiro do ferro, o cheiro de borracha queimada de suas botas a ranger
sobre o assoalho da casa. Lembro da voz comandante ordenando que nos levassem à força para o porão de nossa casa. Eu lembro do cheiro de sua fúria. No porão, havia uma grande e escura dispensa, cuja única entrada de ar era feita por duas persianas de madeira e uma pequena porta de madeira. O porão, esse era o suposto “bunker” que, por anos, em vez de reunir comunistas, foi povoado por móveis, utensílios sem uso e sacos de ráfia cheios de grãos que vinham da usina do avô Ludgero, pai de Miguel. Eles apagaram a luz, era uma quase escuridão. Acho que uma pouca luz nos salvou de entrar em pânico: Éramos quatro meninas e um menino no escuro do medo, guardados pelas
asas de afeto de Luiza. Ela cantava baixinho uma musica de ninar e dizia:
Naquelas horas intermináveis no cárcere privado experimentamos o terror.
Vai passar, tudo isso vai passar, vai passar.
Não passou.
O terror durou dias, meses, anos.
Muitos anos.
….
Excerto do livro Chão de Exilio, de Wanda Monteiro.

Fonte do texto e da foto
: feicebuque da autora
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