Ele foi o rei da Judeia, um dos homens mais articulados de seu tempo. Entretanto a sede de poder e o ciúmes, o tornou um dos ditadores mais perversos da história. Aquele que entrou para as páginas como o matador de crianças judias

herodes

Herodes nasceu por volta de 74 a.C. na terra de Edom, cidade conhecida atualmente como Neguev ou Neveg, em uma pequena região deserta ao sul da Judeia. Filho do pai Antipatros e da mãe Cupros ou Cipros. Herodes herdou a sede de poder do pai, que era um seguidor de Hircano II. Aliás, foi por meio dos laços de seu pai com Hircano e o apoio a César que Herodes e seu irmão Fasael conseguiram suas primeiras nomeações para cargos públicos.

 

Herodes era um menino de 16 anos quando conseguiu ser nomeado como prefeito de Galileia, no norte da Judeia. Foi durante suas primeiras atitudes como mandatário que ele mostraria sua forma de agir em toda a sua vida no poder. Ele era tirânico, justo e, ao mesmo tempo, bárbaro. Ao chegar ao cargo máximo, um de seus atos foi desfazer um grupo de semir religiosos que não aceitavam pagar os tributos e desobedeciam as leis do governo.

 

Atos de violência
Mariamne, segunda esposa de Herodes, filha de Alexandre e Alexandra | Foto: John William Waterhouse

A primeira vítima de Herodes foi o líder dos rebeldes, um homem chamado Ezequias. Ele foi capturado, torturado e executado sem nenhum tipo de julgamento. O ato enfureceu os judeus mais tradicionais e foi chamado a prestar esclarecimentos ao sinédrio (Suprema corte judaica). Herodes só foi liberado devido a uma ordem repentina vinda de Roma, senão seria condenado. Isso o deixou ainda mais arrogante. Tempo depois, em 15 de março de 44 a.C. Júlio César foi assassinado e a família de Herodes (conhecidos como herodianos) ficou na expectativa pelo nome do substituto do imperador. Afinal suas posições públicas dependiam disso.

 

A vida de Herodes melhorou muito quando, em um ataque de rebeldes judeus contra ele e Hircano, conseguiu conter o grupo. Em retribuição, Hircano deu a mão de sua neta, a princesa Mariamne, em casamento. Mesmo sendo casado com a árabe Dóris, Herodes contraiu novo casamento que, aliás, não foi o único. No decorrer de sua vida, Herodes casou-se com mais de dez mulheres e com elas teve entre 12 e 14 filhos.

 

Seu maior desafio sempre foi conquistar Roma e assim conseguir mais poder. Foi dessa forma que se aproximou de Marco Antônio, o líder do Império romano. Ambos tinham muito em comum, em especial suas naturezas cruéis e brutais. Marco Antônio logo deu provas disso ordenando a execução de centenas de judeus em sinal da lealdade de Herodes. Fora isso, nomeou-o com seu irmão para governar e co-governar a Judeia.

 

O apoio de Roma
Herodes | Foto: James Tissot

Não foram poucos os problemas que Herodes enfrentou no poder, em um deles fugiu para Massada com parte de sua família e soldados. Lá ficou escondido do exército de Antígono, um de seus maiores inimigos. Não conseguindo se sustentar por muito tempo ali, rumou para Roma com a finalidade de pedir proteção aos romanos. O Senado concordou com o seu pedido de ser nomeado “rei dos judeus” e com o restabelecimento da soberania romana na Judeia. Foi assim que o ditador seguiu para Massada a fim de libertar seus seguidores e sitiou Jerusalém antes de seguir para seu destino. Antígono, que havia sido capturado por Herodes, foi enviado a Roma, chicoteado até a morte e depois decapitado.

 

Durante o seu reinado, Herodes manteve sua estratégia de bom ditador e de apoiar quem estivesse no poder. Fosse Marco Antônio a estrela de Roma, ele o apoiava; se era Otávio, mudava de lado. Assim alternava sua lealdade, em detrimento de quem estivesse no poder.

 

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Há vezes, em que alguém arrisca, de fato, tudo em alguma coisa para o bem de outras pessoas, quando descobre e defende uma verdade. O mundo costuma ser hostil nesses casos – e o foi com Nelson Mandela. É fato que ele merecia toda a reverência e todo respeito possível depois do imensurável sacrifício que fez por sua nação – e pelo mundo – em sua incansável luta pela liberdade na África do Sul. Mas, de maneira inesperadamente singular, nem a família nem seus próprios correligionários políticos parecem dispostos a conceder ao herói da luta antiapartheid o merecido descanso depois de mais de 70 anos de luta contra um dos regimes mais cruéis do mundo contemporâneo.

 

O povo sul-africano assiste, estarrecido, à luta que se desenrola nos bastidores entre filhos, netos e parentes distantes pela divisão de seu patrimônio. Também brigam por definir onde será enterrado e o que farão do uso político de sua imagem. Prestes a completar 95 anos e internado por conta de uma infecção pulmonar desde o dia 8 de junho de 2013 no Medi-Clinic Heart Hospital, em Pretória, Mandela permanece em estado de coma enquanto uma multidão, do lado de fora do hospital e nos jardins de sua casa em Johannesburgo, aguarda por informações, presta homenagens ao seu idolatrado Madiba (o Conciliador) com orações e uma profusão de flores e mensagens.

Conspiração contra Mandela

Desde o momento em que foi transferido ao hospital, o destino parece conspirar contra Mandela. Primeiro foi a ambulância que quebrou na entrada entre Johannesburgo e Pretória, distantes uma da outra em 50 quilômetros. O veículo ficou parado quase uma hora em um frio de 6 graus. Nelson, já padecendo de graves distúrbios respiratórios, teve uma parada cardíaca, mas foi prontamente ressuscitado pela equipe médica. Ao seu lado, sua esposa Graça Machel entrava em desespero.

Depois, uma série de notícias trouxe à tona as desavenças da família Mandela na disputa de seu patrimônio avaliado em 15 milhões de dólares. O enredo teve de tudo, de sequestro de restos mortais, alteração de documentos assinados pelo próprio Madiba, ações judiciais e até disputas de poder entre os chefes de sua própria tribo, os tembus.

 

Ele tinha certeza que seu patrimônio seria motivo de disputa entre suas filhas e netos. Antecipando a discórdia, entre 2003 e 2005, com ajuda de seus advogados, Mandela criou vários fundos de investimentos para gerenciar sua fortuna e também assinou um documento nomeando curadores independentes para administrar a herança. Entretanto, sem o conhecimento do pai, duas de suas filhas, Makaziwe Mandela e Zenani Dlamini, secretamente, adulteraram o documento com a ajuda de um advogado.

 

Desde o início de 2013, Zenani é a embaixadora sul-africana na Argentina e também representa seu país no Paraguai. É a primeira filha do ex-presidente e de sua segunda esposa, Winnie Mandela, e foi casada com o príncipe Thumbumuzi Dlamini, de Suazilândia, de quem conserva o sobrenome e o título real.

Já Makaziwe, filha de Mandela com sua primeira mulher Evelyn Mase, falecida, é mais conhecida por brigar com a imprensa internacional, chamando os jornalistas de “abutres”. Logo, ela, em abril de 2013, com sua meia-irmã Zenani, entrou na Justiça para retirar do conselho de dois fundos de investimentos o amigo e advogado George Bizos, que defendeu seu pai em seu julgamento nos anos 60.

Sequestro dos restos mortais de mandela

No dia 26 de junho, os médicos de Pretória, frente ao quadro de “estado vegetativo permanente”, ou, em outras palavras, em coma irreversível no qual se encontrava Mandela, aconselharam a família a desligar a máquina que o ajuda a respirar e o mantém artificialmente vivo. A informação consta da documentação judicial entregue ao tribunal de Mthatha (ao sul do país) que arbitra o conflito familiar sobre onde serão sepultados os restos mortais do ex-presidente sul-africano.

 

Na verdade, Mandela nunca deixou por escrito como gostaria que fosse seu funeral, mas, por várias vezes, expressou o desejo de ser sepultado na aldeia de Qunu, onde passou parte de sua infância. Ali foram enterrados três de seus descendentes, frutos de seu primeiro casamento: seu filho mais velho Thembekile, que morreu em 1969; sua filha Makaziwe, que faleceu com nove meses em 1948; e de Makgatho, falecido em 2005 em consequência de complicações provocadas pelo vírus HIV.

Interesses políticos
Até Buyelekhaya Dalindyebo, rei da tribo dos tembus, quer destituir Mandla do cargo de chefe do vilarejo de Mvezo. O pedido de Dalindyebo não deverá ter efeito nenhum, na medida em que sua própria autoridade é questionada por um grupo de líderes tembu, desde que o rei foi acusado de homicídio em 2005.

 

Nem seus antigos correligionários políticos parecem estar interessados em deixá-lo em paz em seus últimos dias. O próprio presidente Jacob Zuma negou que o ex-presidente Nelson Mandela esteja em estado vegetativo, desautorizando, assim, o documento assinado pelos médicos do hospital de Pretória. Contrariando a todos, Zuma afirmou que o estado de saúde do líder político continua “crítico, mas estável”.

 

Na África do Sul, especula-se que há pressões políticas por parte do Congresso Nacional Africano (o partido de Mandela e de Jacob Zuma) para que a família só desligue a máquina depois de 18 de julho, dia do 95º aniversário do herói sul-africano. Dessa maneira, a morte de Mandela não estragaria a festa já preparada pelo CNA para o seu aniversário. A questão levantou tanta polêmica que Graça Machel tentou minimizar o constrangimento dizendo que o grande herói do apartheid não está em sofrimento.

Encrenqueiro de nascença

Além da vida e da aparência vigorosa, Mandela recebeu do pai quando nasceu seu nome do meio, Rolihlahla, que em uma tradução livre do dialeto xhosa quer dizer “encrenqueiro”. Não que seu pai tivesse o dom da premonição, nada disso. “Porém, amigos e parentes costumavam relacionar ao meu nome as muitas tempestades que provoquei e suportei. O nome inglês pelo qual sou conhecido, só recebi no meu primeiro dia de escola”, escreve Nelson Rolihlahla Mandela na abertura de sua comovente autobiografia Longo Caminho para a Liberdade, escrita em boa parte durante seu longo cativeiro de 27 anos.

 

Ele nasceu em Menzo, uma aldeia no território de Transkei, no sudeste da África do Sul, em 18 de julho de 1918. Era a área destinada à nação xhosa, povo orgulhoso de sua língua e costumes e com uma crença ferrenha na importância do respeito às leis, aos estudos e à cortesia. Seu pai, Henry Mphakanyiswa, ou Henry Mandela, chefe da tribo dos tembus (um dos grupos da nação xhosa), tinha ao todo 13 filhos das quatro esposas. Nelson era filho de sua terceira mulher.

 

Teimosia de família

A história de Henry Mandela confirma que “o encrenqueiro” teve a quem puxar. Quando Nelson ainda era um bebê, a família sofreu um grande baque por conta do temperamento de Henry. Orgulhoso e com um enorme senso de justiça, Henry não aceitou as ordens de um juiz branco (na época, a África do Sul estava sob o domínio britânico) que o interpelou por causa de uma simples vaca. Em represália pela rebeldia, Henry perdeu seu título, a fazenda, o gado e todos os rendimentos que lhe eram devidos como chefe: “ Passamos a viver em Qunu com menos luxo, mas foi lá que passei os melhores anos da minha vida”, escreve Nelson em sua autobiografia.

 

Aos 7 anos, tornou-se o primeiro membro da família a frequentar uma escola metodista na qual estudavam apenas as crianças da elite local. Mas, aos 9 anos, Rolihlahla perdeu o pai e sua vida complicou. Jongintaba, o príncipe regente dos tembus, tornou-se seu padrinho e não permitiu que ele deixasse de estudar para “não passar a vida trabalhando nas minas de ouro do homem branco, sem saber escrever o próprio nome”. Aos 16, Mandela se submeteu ao ritual de iniciação de sua tribo, ficou por um tempo recluso em uma caverna e saiu de lá com o corpo pintado de branco e achando-se pronto para iniciar sua vida adulta. Em 1938, com 20 anos, seguiu para Fort Hare, a única universidade negra do país.

O capitão de sua alma

Foi na universidade que Mandela entrou em contato pela primeira vez com membros do Congresso Nacional Africano, CNA. No segundo ano do curso de direito, ele aderiu ao movimento por melhorias na faculdade, acabou expulso e não teve alternativa a não ser voltar para casa. O rei dos tembus, Jongintaba, desgostoso com a situação, arranjou um casamento para o encrenqueiro que, inconformado com a ordem, fugiu para Joanesburgo em 1941, com seu primo e irmão adotivo Justice.

O jovem Mandela no escritório de advocacia de Mandela e Tambo, em Joanesburgo, 1952| Foto: American Academy of Achievement/Jurgen Schadeberg

Seu primeiro emprego como segurança de uma mina de ouro durou poucos dias, pois foi despedido assim que descobriram sua fuga do casamento arranjado. Nesse momento, Mandela descobriu que ser livre para comandar seu próprio destino seria muito mais complicado do que imaginava, até porque, para onde fosse, a intricada rede de parentesco de seu padrinho o encontrava e o delatava ao chefe.

A teimosia herdada do pai, entretanto, não deixou que ele desistisse. Saia de porta em porta à procura de ajuda com os parentes e sempre arranjava acomodação e comida. Para logo ser despejado quando descobriam suas mentiras. Sua sorte começou a virar quando foi bater na porta de certo Walter Sisulu, da mesma região de Transkei, que dirigia uma agência imobiliária. Além de comerciante de prestígio, Sisulu também era um respeitado líder comunitário e foi o primeiro a escutá-lo com atenção e a dar-lhe crédito. Ao saber que Mandela queria se formar em Direito, encaminhou-o para um amigo que o aceitou como estagiário.

 

O início da luta

Nessa época, ele morava em Alexandra, uma das favelas mais violentas da cidade. Em 1942, foi estudar direito em Witwatersrand, mas não conseguiu realizar os testes finais e ficou sem diploma, o que não o impediu de advogar. Ainda na universidade, em 1944, casou-se com uma prima de Sisulu, Evelyn Ntoko Mase, a primeira de três esposas.

 

A partir de 1944, sob influência de Sisulu, Mandela se juntou às fileiras do CNA. Mas a imobilidade do partido político, que existia desde 1912, o irritava tanto que, com Sisulu, Oliver Tambo e Govan Mbeki, fundou a Liga dos Jovens do CNA.

 

Apoiadores do CNA incentivam Mandela, confinado em um veículo que o transportava até o Tribunal de Joanesburgo, em 28 de dezembro de 1956

 

Em 1948, o regime racista levou Nelson Mandela a radicalizar a militância. Nos anos seguintes, liderou várias campanhas de desobediência civil, o que ajudou a transformar a resistência ao regime em um grande movimento de massas. Em 1952, com Oliver Tambo, abriu um escritório de advocacia negro bem em frente ao Palácio de Justiça de Joanesburgo, afrontando o regime racista no qual todos os juízes eram brancos. Entretanto, apesar de ser um advogado famoso, o Senhor, como também era chamado, estava proibido de se sentar onde quisesse por conta da lei do apartheid.

 

Nos anos seguintes, Mandela organizou e participou de inúmeras manifestações pacíficas contra as leis que cada vez mais oprimiam o povo negro da África do Sul e tirava-lhes a dignidade. Em 1955, participou de um grande movimento para redigir a Carta da Liberdade, que defendia um governo democrático e multirracial e que desse poder ao povo.

 

O partido comunista clandestino apoiou o movimento e isso foi o suficiente para o governo mandar prender todos os líderes oposicionistas, inclusive o Senhor, Nelson Mandela.

 

Hoogverraad!

Cento e cinquenta e duas pessoas, entre negros, oposicionistas e brancos, foram acusados de planejar um golpe contra o governo. O julgamento se arrastou por anos e a sentença só saiu em 1961. Por conta da enorme pressão feita pela imprensa internacional, todos foram considerados inocentes da acusação de alta traição.

 

Em março de 1960, em Sharpeville, uma cidade industrial próxima a Joanesburgo, eclodiram manifestações contra as leis cada vez mais racistas que resultaram em uma onda de violência, nas quais cerca de 68 pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas. A repressão ficou mais forte, o CNA foi banido e Mandela, que tinha partido para a clandestinidade, desistiu da resistência pacífica e fundou a Umkhonto we Sizwe, ou Lança da Nação, o braço armado do CNA.

 

Entre 1961 e 1962, ele comandou ataques que o levariam de novo a julgamento junto a sete militantes do partido. Em 1964, foi sentenciado à prisão perpétua por terrorismo. Começaram tempos duríssimos para o encrenqueiro. A primeira cela que ocupou em Robben Island era tão pequena que ele, com 1,85m de altura, dormia sobre uma esteira, com os pés e a cabeça quase tocando as paredes. Tomou banho gelado por oito anos. Costumava sair da cela, onde permaneceu durante 18 anos, para cumprir jornadas de trabalho forçado, quebrando pedras de cal no pátio.

 

Foram 27 anos de reclusão, nos quais ele nunca se aquietou. Nas poucas visitas que recebia, aproveitava para enviar cartas aos seus companheiros de luta, incentivando-os a continuar na resistência. Durante o tempo na prisão, Mandela aproveitou para aprender a língua inglesa. Só dessa maneira, dizia aos seus companheiros, é possível entender como funciona o raciocínio de seus opressores e vencê-los de forma pacífica.

 

Enfim, a liberdade

Desde 1978, o governo branco da África do Sul começou a sofrer mais e mais pressão dos organismos americanos e europeus para acabar com o regime do apartheid e liberar os presos políticos. Um boicote econômico internacional foi organizado e o regime do presidente P.W. Botha foi colocado em xeque. Botha declarou que estava preparado para libertar Mandela desde que ele renunciasse à violência como forma de protestar contra o apartheid. Mas não houve acordo. Em fevereiro de 1985, em frente a uma multidão de manifestantes, sua filha leu sua carta de rejeição à proposta do governo: “Só homens livres podem negociar. Prisioneiros não podem firmar acordos. Não posso e não vou firmar qualquer compromisso enquanto eu e você, povo, não estivermos livres. A minha liberdade é a liberdade de meu povo e não podem ser separadas.”

 

As negociações para a liberdade de Mandela ainda se arrastariam por mais cinco anos. Em fevereiro de 1990, o então presidente Frederik de Klerk, com quem Mandela dividiria o Prêmio Nobel da Paz em 1994, reverteu o banimento do CNA e com esse ato Mandela voltou à liberdade, com 71 anos. A responsabilidade do futuro da África do Sul estava, a partir daquele momento, em suas mãos.

 

“Nosso maior medo não é sermos inadequados. Nosso maior medo é sermos poderosos além do que podemos imaginar… pensando pequeno você não ajuda o mundo. Não há nenhuma bondade em você se diminuir, recuar para que os outros não se sintam inseguros ao seu redor… Quando nos libertamos do nosso medo, nossa presença automaticamente libertará outros.”

 

Com essas palavras, Nelson Rolihlahla Mandela, o conciliador mais teimoso já nascido no continente africano, pronunciou seu discurso de posse em 10 de maio de 1994. Aos 75 anos, Mandela se tornou o primeiro presidente negro da África do Sul. Seu maior objetivo foi consolidar a união de seu país dividido.

 

Mandela discursando para a multidão no estádio; ao seu lado, Winnie e Walter Sisulu, apenas dois dias depois de sua libertação | Foto: Mirrorpix

 

O líder sul-africano foi fiel aos seus compromissos de campanha e economicamente responsável, sem esbanjar os parcos recursos de seu país. Em grande parte, conseguiu mudar a imagem de um país estigmatizado no cenário internacional pela segregação e violência. Com ele, a África do Sul passou a fazer parte das agendas de mandatários importantes, tanto da Europa quanto das Américas.

 

Sem sua liderança firme e equilibrada, dizem os analistas políticos e historiadores, fatalmente o país teria acabado em uma guerra civil, até porque como escreveu Marc Ross, cientista político americano: “Os brancos ainda tinham o dinheiro e as armas e os negros queriam vingança.”

 

Adaptado do texto “O herói da liberdade”

 

Iniciada em julho de 1936, com término entre março e abril de 1939, foi um confronto bélico após o fracasso do golpe de estado de alguns militares, entre eles Francisco Franco, que não foi o seu principal mentor. Essa guerra teve o apoio da igreja e dos partidos espanhóis de direita, que se sublevaram contra o governo espanhol republicano eleito pela maioria dos espanhóis

Este conflito afetou não apenas os espanhóis, sendo considerado um dos maiores episódios do século 20, e estopim da Segunda Guerra Mundial, além de ter servido de ensaio para os armamentos de guerra novos de Adolf Hitler (Alemanha) e para Joseph Stalin (União Soviética), como experiência política.

Por volta de 1930, antes do início da Guerra Civil, o clima político e social era tenso, como consequência do golpe de estado realizado pelo capitão-general da Catalunha, Miguel Primo de Rivera, com a conivência do Rei Alfonso XIII, o que levou a Espanha à ditadura militar (1923-1930).

Em 1931, após as eleições municipais e a partida do rei ao exílio, foi instaurada a Segunda República. Além disso, houve crescentes conflitos entre esquerdistas, apoiados pelos sindicatos e partidos políticos de esquerda; e entre nacionalistas, com tendência fascista, amparados, por sua vez, pelo clero, exército e latifundiários. A Frente Popular esquerdista, eleita democraticamente em fevereiro de 1936, que defendia o Governo Republicano, em contraposição à frente nacional de direita, pretendia combater o fascismo crescente em território espanhol e em outros países europeus, e contava com o apoio da União Soviética.

Este contexto de enfrentamento ideológico foi a causa para que a guerra deixasse de ser um evento estritamente espanhol para ganhar importância entre forças que disputavam a hegemonia mundial.

Famílias se refugiando no metrô de Madri, em 9 de dezembro de 1936, enquanto bombas são derrubadas pelos aviões rebeldes de Franco

O clima turbulento interno motivado pela intensificação da luta de classes, em especial entre anarquistas e falangistas, provocou assassinatos políticos, instabilidade e perda de prestígio da Frente Popular. Por outro lado, os direitistas, derrotados nas eleições espanholas, mas entusiasmados com os sucessos de Hitler, passaram a conspirar com os militares e com o apoio dos regimes fascistas (a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini e Portugal de Salazar), acreditando que um levante dos quartéis, seguido de um pronunciamento dos generais, derrubariam facilmente a República. Entretanto, nas principais cidades, Madri e em Barcelona, capital da Catalunha, o povo saiu às ruas, levando o golpe ao insucesso. Foram formadas milícias anarquistas e socialistas para resistir ao golpe militar. Com o fracasso, o conflito tornou-se guerra civil no dia 18 de julho de 1936, quando o exército insurgiu contra o governo da Segunda República Espanhola.

 

Além dos ataques que arrasaram Guernica, os bombardeios mais virulentos foram realizados sobre a cidade de Barcelona pela aviação italiana e alemã, que provocou um grande massacre da população civil, que também serviram de experiência para os bombardeios que a Europa sofreu na Segunda Guerra Mundial.

 

Fator decisivo para a vitória do general Franco foi a unidade que conseguiu impor sobre as direitas e a superioridade militar. Em pouco tempo, a Espanha foi dividida em duas facções, a zona nacionalista, dominada pelas forças do General Franco, e outra, a zona republicana, controlada pela esquerda. Nas áreas desta segunda, houve uma revolução social: terras foram coletivizadas, as fábricas e os meios de comunicação tomados pelos sindicatos.

Em algumas localidades, os anarquistas chegaram a abolir o dinheiro. Em 1938, com o país dividido pelas forças franquistas em duas partes, a Catalunha foi isolada do resto do país. No dia 26 de janeiro de 1939 as tropas franquistas tomaram Barcelona e, no dia 28 de março, Madri se rendera aos franquistas, após ter resistido por quase três anos a poderosos ataques aéreos, de blindados e de tropas de infantarias.

O clima entre os civis

Os conflitos, batalhas e guerras envolvem estratégias organizacionais e militares que acometem a todos, indistintamente. A população civil é a primeira a ser atingida e violentada nas suas atividades cotidianas e convicções, correndo riscos pessoais, em nome daqueles que tem o poder de decisão do confronto bélico ou dos acordos, da guerra ou da paz, e da vida ou da morte de milhares de pessoas.

 

Soldados lealistas ensinam prática de alvo para as mulheres contra as tropas rebeldes do general Francisco, junho de 1937

 

Homens, mulheres e jovens são arregimentados, convocados, ou mesmo, arrebatados pelo entusiasmo para as frentes de batalha para lutar por uma causa, por vezes, que não são as suas. Dão o seu sangue, defendem a sua terra, enfrentam perigos e momentos de terror, veem com seus próprios olhos companheiros tombando ao seu lado – sem saber se serão os próximos –, são levados para longe das suas casas e famílias, e, bruscamente, veem-se em situações inimagináveis e fora do controle. As circunstâncias dramáticas, em condições extremas, levam pessoas ao desespero: à luta pela própria vida; à busca por qualquer tipo de alimento, para apaziguar a fome; à busca por notícias, para apaziguar as incertezas e as saudades; à busca de companheiros e de afeto, para apaziguar a solidão e o medo da morte.

 

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Adaptado do texto “A guerra que mudou a Europa”

A alguns meses já noto dezenas e dezenas de pessoas aqui no blog falando de bolsa de valores, mesmo nosso site não sendo foco sobre investimentos, as vezes falamos de empresas como (fabricas, lojas, e outros).

E percebi que tem verdadeiros fãs de certas empresas, e então percebendo isso foi investigar o que estava acontecendo nisso descobrir um novo universo isso mesmo o mundo de investimentos .

Como Funciona a Bolsa de Valores

Pessoas que estão depositando todas suas economias em empresas que mal conhecem só por que uma casa de analise indicou, quero deixar bem claro isso é muito perigos, essas empresas de analise pode ter algum ganho em indicar uma cerca empresas ou tirar a recomendação .

estrategias de day trade

Mais esse mundo da b3 a dona da bolsa de valores do Brasil, tem varias formas de ganhar dinheiro, a primeira mais simples investimento de longo prazo, o que seria isso? você na pessoa física investe como sócio isso mesmo já pensou em ser sócio da Ambv ou da magazine Luiza, com a partir de 10,00 Reais já consegue comprar ações e receber dividendos das empresas que você tem em carteira.

Segunda opção o swing trade isso já é o que trades fazem a ideia é comprar barato e vender caro e assim lucrar, ex que eu realmente tive comprei ações da AMBV a 11,20 a 2 meses atrás hoje ela já esta a 13,50 então já estou com lucro de 2,30. Agora faz as contas se tivesse comprado 1mil ações teria ganhado 2,300 reias em apenas 2 meses sem fazer nada apenas comprando e vendendo não é bom.

A terceira e mais arrisca que conheci foi o famoso day trade, esse é o mais arriscado de perder dinheiro mais também a forma que pode ganhar muito dinheiro com o mini índice e mini dollar isso se chama de mercado futuro, uma explicação rápida o trade compra um papel e torce para a bolsa subir ou se vender torce para mercado cair.

Para fazer isso claro que ninguém faz isso sem nenhuma técnica o pessoal usa gráficos e estratégias de operadoras antigos, eu aqui fiz alguns teste em simulador 80% das técnicas que fiz não foi bom resultado, unico que estou obtendo um certo resultado bom é de um canal do YouTube escola para Uber, com nome estranho para um trade mais é que me identifiquei pela historia que ele conta era motorista de aplicativo e mudou de vida com a bolsa de valores.

O ponto positivo que as estratégias dele é bem simples sem firula mais para ter acesso a ela e lucrar precisa comprar curso escola para Uber do Thomas

Os valores até que não é caro comparado com os outros trades que vendem cursos, mais uma bela dica antes de tentar operar esse mercado utilize o simulador por pelo menos 1 mês, isso vai fazer você a saber mexer nas plataformas, aqui uso apenas o rico trade custa apenas 9,90 e tem todos os recursos necessários para trabalhar com trades.

Conclusão

Bolsa de valores é algo serio, não entre com todo seu dinheiro nele faça teste veja o que mais você se enquadra

day trade, swing trade ou buy and holder e sempre estude muito, não vai na conversa que ganha dinheiro fácil isso não existe.

 

“É preciso que alguém fale, e fale alto, e diga tudo, custe o que custar.” José Américo de Almeida, jornal Correio da Manhã *

Nada acontece por acaso

A entrevista não foi obra do acaso, do oportunismo de um jornalista à caça de uma notícia que abalasse os alicerces do Estado Novo e que, por sorte, esbarrasse em um personagem afastado do momento político, mas interessado em dar declarações bombásticas. Ela foi, na verdade, o resultado de uma minuciosa articulação feita por um hábil político, Luiz Camillo de Oliveira Netto, participante, em 1943, do Manifesto dos Mineiros – infrutífera contestação de políticos do seu Estado.

 

Apesar da declaração não ter surtido o efeito desejado, a intenção de Luiz Camillo de derrubar a ditadura continuou firme e forte. Daí o seu empenho para que, dessa vez, as revelações da entrevista finalmente atingissem o objetivo.

 

“Nesta hora não me nego a falar. Ao contrário, julgo chegado o momento de todos os brasileiros opinarem. Esta é uma hora decisiva que exige a participação de todos no rumo dos acontecimentos.”
José Américo de Almeida*

 

Primeiro era preciso encontrar um político com credibilidade junto à opinião pública. O escolhido foi José Américo de Almeida, um profundo conhecedor dos bastidores do poder antes mesmo da criação do Estado Novo. Nas eleições presidenciais realizadas em março de 1930, por exemplo, ele apoiou a candidatura oposicionista de Vargas. Foi designado pelo próprio presidente para compor a comissão encarregada de elaborar o anteprojeto da futura Constituição. Como ministro de Estado, participou dos trabalhos constituintes entre 1933 e 1934, articulando a permanência de Vargas no poder.

Em julho de 1934, exonerou-se do ministério, elegeu-se senador pela Paraíba, mas renunciou ao cargo um ano depois para ocupar – por indicação de Vargas – o posto de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU).

 

Durante o ano de 1937, teve o seu nome lançado para concorrer à sucessão à presidência nas eleições previstas para janeiro do ano seguinte. Sair do poder, entretanto, não estava nos planos de Vargas, que frustrou a expectativa dos candidatos ao promover, em novembro de 1937, o fechamento do Congresso e o cancelamento das eleições, dando início à ditadura do Estado Novo.

 

“No momento em que se pretende transferir a responsabilidade da situação dominante no Brasil da força que a apoia para a chancela do povo é a própria ditadura expirante que nos dá a palavra.”*

 

José Américo afastou-se, então, de Vargas, mas se manteve em seu posto no TCU durante todo o Estado Novo. Em janeiro de 1945, representou a Paraíba no Congresso Brasileiro de Escritores. O evento assumiu um nítido caráter antiditatorial, com o pedido de eleições livres para a presidência, assinada por todos os seus participantes. Por tudo isso, ocorreu a escolha do nome de José Américo como entrevistado para criticar a atuação do governo federal.

 

A estratégia seguinte era escolher um jornalista que fosse aceito pelo entrevistado. O nome mais indicado para a empreitada foi o de Carlos Lacerda, um brilhante jornalista jovem da época que, não por acaso, também era um ferrenho opositor ao governo. A terceira etapa da articulação de Luiz Camillo era encontrar um jornal que aceitasse publicar a matéria.

O superministério

A tarefa não seria fácil, na medida em que os meios de comunicação da época temiam represálias, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) exercia um total controle ideológico sobre a opinião pública por meio da censura aos meios de comunicação e da publicidade do governo em cima da figura do ditador. Entre as incontáveis intervenções do DIP sobre os jornais, pode ser citado o confisco temporário do jornal O Estado de S. Paulo, com a prisão e o exílio de dois de seus diretores.

 

Quase nada escapava aos olhos e ouvidos atentos dos censores. Só no ano de 1942, chegaram a proibir a veiculação de 108 programas de rádio e quase 400 músicas, a maioria de marchinhas carnavalescas, fosse por serem consideradas perigosas aos interesses da pátria, ou por suas letras de mau gosto, segundo a moral vigente na época.

Por outro lado, o DIP se empenhou em difundir a boa imagem do governante, criando assim o culto à sua personalidade, por meio de fotos, passeatas, concentrações e até marchinhas de carnaval que enalteciam a postura “democrática” do ditador, que não se furtava nem a assistir os famosos espetáculos de teatros de revista na Cinelândia, no Rio de Janeiro, nos quais era alvo de brincadeiras e piadas (previamente censuradas, claro) por parte de atores e vedetes.

 

O outro legado do DIP foi a criação do A Voz do Brasil, programa radiofônico obrigatório para todas as estações de rádio do país, com notícias exclusivas do governo federal. É bom lembrar que, na época Vargas, o rádio era o meio de comunicação mais popular e de longo alcance no território brasileiro. Para completar o quadro, a eficiente polícia política da ditadura vigente, comandada por Filinto Müller e responsável pela prisão, morte e tortura de milhares de “inimigos” do regime, seria capaz de assustar qualquer dono de jornal, independente de suas simpatias ou antipatias políticas.

 

Editorial corajoso

Não à toa, o jornal escolhido para a publicação da entrevista foi o Correio da Manhã. Desde sua fundação, em 1901, por Edmundo Bittencourt,o jornal se mostrou engajado na vida política do país. Por inúmeras vezes, o Correio foi alvo de processos, proibições de circulação e até prisões de seus donos e jornalistas. Apesar de todo o tipo de perseguição, Paulo Bittencourt, herdeiro e diretor do Correio da Manhã, manteve sua linha editorial corajosa e resolveu bancar a entrevista de José Américo.

 

“Cumpri meu dever. Falei por mim e sinto ter interpretado também o pensamento ainda vedado do povo brasileiro. Fui levado a exprimir-me desta forma por um poder de determinação que nunca me abandonou nos momentos decisivos.”*

 

Apesar de perigoso, o fato não era inédito por parte do jornal, na medida em que na mesma semana, o Correio publicou duas outras matérias ameaçadoras. Na primeira, as declarações de Flores da Cunha, ex-governador do Rio Grande do Sul de 1935 a 1937, deposto pelo Estado e forte opositor a Vargas, arranhavam profundamente a imagem do ditador. Na segunda, ninguém menos do que o pai de Carlos Lacerda, o ex-deputado de esquerda Maurício de Lacerda, considerado um dos mais notáveis tribunos da Velha República, pedia o fim do Estado Novo e a cabeça de seu dirigente-mor.

 

O remate final dos conspiradores – mais uma das articulações do político mineiro Luiz Camillo – foi a escolha do título que deveria ser neutro, quase inofensivo (aparentemente inocente), para que não acirrasse ainda mais os nervos que andavam à flor da pele tanto dos seguidores de Vargas como dos censores do DIP.

 

Dessa maneira, A situação: declaração do sr. José Américo, título como foi publicado no original, passou para a história como “a reportagem que ajudou a derrubar Vargas”.

 

 

Estado Novo agonizante

A reportagem, ainda que muito bem escrita e engendrada, não pode ser considerada o único fator importante na derrubada de Getúlio Vargas. Mas ela parece ter sido, por certo, a pá de cal sobre o Estado Novo.

 

Naquela ocasião, o Brasil vivia um momento histórico, no mínimo, ambíguo. Por um lado, soldados brasileiros lutavam na Itália ao lado dos Aliados, os quais justificavam sua participação na guerra contra Hitler como sendo a defesa da própria democracia. Por outro, o país vivia sob um regime que poderia ser tudo, menos democrático.

 

Resumindo: o resultado final na 2ª Guerra Mundial inviabilizou o Estado Novo. A derrota da Itália fascista e da Alemanha nazista, países pelos quais Vargas nunca escondeu sua simpatia, por similaridade poderia significar também o fim de qualquer tipo de ditadura. Ora, Vargas, como militar e político sagaz que sempre foi, sabia reconhecer o momento de retirar sua tropa. Por isso começou a planejar a liberalização de seu regime. Mas sob seu estrito controle, claro.

 

A entrevista marcou, na verdade, o fim da censura prévia no Estado Novo agonizante. Tanto é que, em 18 de abril de 1945, Vargas decretou anistia geral para todos os condenados por crimes políticos desde 1934. Isso implicou na libertação de comunistas, como Luiz Carlos Prestes, e integralistas da ultradireita. Em seguida, Vargas permitiu a fundação de partidos políticos banidos desde 1937 e convocou eleições gerais e diretas para os Poderes Executivo e Legislativo a serem realizadas no dia 2 de dezembro de 1945.

Porém, um mês e três dias antes das eleições, em 29 de outubro de 1945, Vargas foi deposto num golpe militar liderado por Pedro Aurélio de Góes Monteiro, um general de sua confiança. Outros militares, que nos anos anteriores haviam apoiado fielmente o ditador, como Osvaldo Cordeiro de Farias, Newton de Andrade Cavalcanti e o próprio candidato presidencial Eurico Gaspar Dutra, também avalizaram sua deposição. Não houve resistência por parte de Getúlio Vargas.

 

Após oito anos de ditadura, em 1945, os brasileiros marcaram um novo encontro com a democracia e elegeram o general Eurico Gaspar Dutra, o candidato do Partido Social Democrático (apoiado pelo ex-ditador), como presidente da República. Era o início de um regime democrático que duraria 19 anos (até a Revolução de 1964, quando os militares novamente voltaram ao poder), mesmo tendo que brigar por sua sobrevivência em diversas crises políticas durante esse período.

 

*Trechos da entrevista de José Américo de Almeida, concedida a Carlos Lacerda em reportagem do Correio da Manhã, em 22 de fevereiro de 1945.

Há 25 anos, começava o pesadelo radioativo com o césio-137, em Goiânia, o maior desastre nuclear do mundo fora de uma usina. Hoje, o debate sobre o uso da energia atômica volta à tona: o Brasil deve aproveitar sua capacidade de enriquecimento de urânio e se tornar potência ou tem que abandonar o projeto?

a discussão do tema reaparece mais viva diante da real necessidade de o Brasil produzir energia para se desenvolver. Mas, por trás da diversificação da matriz energética estão fatos mal explicados, como um suposto programa nuclear clandestino promovido pelo governo brasileiro e os perigos iminentes que a energia atômica traz.

 

Por outro lado, o Brasil possui a sexta maior reserva de urânio do mundo e é um dos poucos países que dominam a tecnologia de enriquecimento para a geração de energia termonuclear com fins pacíficos. Não há dúvidas que a energia nuclear é importante no uso contra câncer e radioterapia, mas a fusão atômica para geração de energia é extremamente sensível e uma substância tão volátil como essa ainda não tem seus riscos sob controle.

 

Equacionar esse dilema é uma das decisões do atual governo diante das reais necessidades que o país se depara. Desde o acidente ocorrido em Goiânia, ainda hoje, as vítimas sofrem com os efeitos da contaminação, somam-se 64 mortes de indivíduos que tiveram contato com a substância, além de mais de 6 mil moradores contaminados e incontáveis casos de cânceres e tumores produzidos pelos dejetos de uma pequena cápsula.

 

Soma-se ainda, o recente acidente na usina de Fukushima, no Japão, que veio para reforçar o aviso cada vez mais urgente de se repensar sobre o uso dessa energia. O governo brasileiro não tem planos para desmantelar as duas usinas em funcionamento em Angra dos Reis (RJ). Ao contrário, não foram paralisados os esforços para a construção de uma terceira estação de geração nuclear, Angra 3.

O ministro de Minas Energia Edison Lobão informou que todas as usinas nucleares brasileiras passarão por testes de segurança, que serão realizados por técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e da Eletronuclear. “No momento, vamos fazer uma avaliação, assim como os outros países também estão fazendo”, disse. Porém, Lobão ressaltou que as obras de Angra 3 não serão interrompidas e que o governo continuará garantindo a produção de urânio sem prejuízo para os produtores.

 

Entretanto, esse cenário é incerto para empresas de equipamentos nucleares, especialistas da comunidade científica se dividem sobre a importância dessa tecnologia e a opinião pública é cativada a não aceitar a fonte.

O governo cogita, inclusive, uma possível abertura do setor à iniciativa privada. Especula-se que a Areva, empresa que assessora a Eletronuclear e que irá fornecer equipamentos para Angra 3, nada tem a acrescentar em termos tecnológicos; o reator da usina foi entregue na década de 80 fornecido pela Siemens, em outras palavras, com tecnologia de mais de 30 anos atrás. Contudo, sobre as reuniões nebulosas que ocorrem nas dependências do Ministério de Minas e Energia, dizem que a nova planta deverá incorporar os avanços tecnológicos, controle digital, além de oferecer um modelo integrado com todas as atividades da produção nuclear.

 

Só na falta de opção

O Brasil é pioneiro na tecnologia de extração e refino de petróleo, é um dos lideres em geração hidráulica, tem a melhor tecnologia para produção de etanol e biodiesel do mundo e desponta em energias renováveis como a eólica. Então, por que quer investir em energia nuclear?

 

Segundo os dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), as duas usinas nucleares do Brasil respondem por 1,68% da matriz elétrica, ou seja, caso as termonucleares sejam desativadas, não existiria a possibilidade de um possível racionamento de energia, pois representam uma parcela ínfima da geração.

 

Mesmo assim, apesar de ser um país que foge à regra quando comparada com a matriz energética dos europeus, a realidade brasileira hoje é de crescente necessidade de energia em curto prazo. De acordo com projeções do Operador Nacional do Sistema (ONS) – que controla o sistema elétrico brasileiro –, a demanda de energia elétrica no Brasil ao longo da década deverá crescer a uma taxa média de 5% ao ano, saindo de um patamar de consumo total de 456,5 mil gigawatts-hora (GWh) no ano de 2010 para 730,1 mil GWh em 2020.

O desafio de acompanhar a demanda expõe uma infraestrutura elétrica envelhecida e a possibilidade de considerar a energia atômica como uma opção. Por outro lado, a história é testemunha de que essa tecnologia é de alto risco e que em casos de acidentes é quase impossível controlar a situação.

 

Mesmo o acidente com o césio em Goiânia e o recente acidente nuclear ocorrido no Japão, o programa nuclear brasileiro continua firme. À frente dos empreendimentos está a Eletronuclear, subsidiária da Eletrobras que até 2015 deverá colocar Angra 3 para funcionar. Entretanto, o Greenpeace Alemanha divulgou, em conferência de imprensa em Berlim, dois estudos que avaliam a possibilidade de uma catástrofe nuclear acontecer em Angra 3 e suas possíveis consequências.

 

Os relatórios expõem as falhas existentes no projeto da usina nuclear e explica que a ausência de certos componentes essenciais de segurança poderiam fazer com que o Brasil tivesse uma catástrofe ainda maior do que a de Fukushima.
Para o coordenador da campanha de energia do Greenpeace, Ricardo Baitelo, “o Brasil tem diversas opções como Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) em Minas Gerais e São Paulo – onde estão os principais mercados consumidores de energia. O potencial conhecido hoje das PCHs chega a 25 GW e corresponde à potência de duas Itaipus”.

Já o governo brasileiro diz que a prioridade do país está focada nas energias renováveis, principalmente hidrelétricas. Em entrevista, o secretário do Ministério de Minas e Energia (MME), Altino Ventura, apontou como serão as diretrizes do governo. “Precisamos escolher a fonte que cause menor impacto e que tenha menor custo unitário. Estamos entrando em uma economia de escala e a energia hidráulica está na faixa de R$ 100,00, ou seja, é uma das mais econômicas.”

 

A solução que ainda é problema

A energia atômica é alvo de controvérsia mundial há mais de 50 anos, quando o presidente americano Eisenhower propôs, em discurso na ONU, o programa atômico pela paz. Hoje, a busca por fontes de energia está levando o Brasil a apostar em caminhos tortuosos na energia nuclear, como em 2010, quando, com a Turquia, mediou um acordo sobre as condições de troca do urânio iraniano levemente enriquecido do Irã, por urânio enriquecido a 20%. Todavia, o país liderado por Mahmoud Ahmadinejad, por fortes tensões com os EUA e Israel, não parece estar disposto em usar a energia atômica para fins pacíficos.

O Brasil domina o ciclo de produção do combustível nuclear e está construindo seu primeiro submarino com propulsão atômica. A revelação de detalhes estratégicos sobre essa tecnologia e os bastidores escusos do programa nuclear estaria no topo das preocupações de quem, no governo Dilma, insiste em manter o sigilo eterno de documentos que datam de mais de 20 anos. Todavia, o programa atômico brasileiro é de longa data e, assim como tem competência para fusão de energia nuclear para geração de energia elétrica, especula-se que também tenha know how para fins bélicos.

 

Por outro lado, é pouco provável que Brasil se enverede na construção de uma bomba nuclear, visto que há anos o país reivindica um acento permanente no conselho de segurança da ONU e é a favor do Tratado de Não Proliferação Nuclear.

 

O passado que o Brasil tenta esconder

Especula-se que as Forças Armadas tentaram desenvolver armas nucleares, com a ajuda de Saddam Hussein. Em 1990, o presidente Fernando Collor jogou uma simbólica pá de cal em um poço de 320 m para testes nucleares na serra do Cachimbo, no Pará. A suspeita é que ele teria sido construído com recursos e tecnologia iraquiana, sob a benção de Saddam Hussein para abrigar testes do programa daquele país. O poço é só um pedaço do quebra-cabeça de uma série de operações clandestinas, iniciadas no governo militar de Ernesto Geisel, para garantir ao Brasil a tecnologia necessária para fabricar a bomba atômica (e ogivas para mísseis nucleares).

 

Na prática, sobretudo a partir do início da década seguinte, o governo manteve dois programas nucleares: o oficial, com fins pacíficos, e o paralelo e sigiloso. Sempre houve facções do regime que defendiam que a única maneira de o Brasil ser respeitado no mundo seria ter a bomba.

 

Além disso, entre 1979 e 1990, o Brasil exportou toneladas de urânio (a matéria-prima das bombas) para Saddam. O roteiro nebuloso inclui espionagem e suborno de técnicos e autoridades estrangeiras, entre outras manobras, que até alimentaram uma CPI sobre o tema. A Constituição de 1988 havia proibido o país de usar a tecnologia nuclear para fins bélicos, mas o esforço dos militares por uma abertura lenta, gradual e, sobretudo, segura sobreviveu até 1990, conforme confirmou mais tarde José Carlos Santana, ex-presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear, no governo Collor. Quando o Cnem do Brasil deixou de funcionar, o país estaria prestes a fazer o primeiro teste.

 

Entenda o nazismo da Alemanha através dessas dicas da Editora Escala

Alemanha Nazista ou Terceiro Reich são nomes comuns para denominar o país entre os anos 1933 e 1945, quando o governo era controlado por Adolf Hitler. Durante esse período, a Alemanha foi transformada em um Estado totalitário fascista que controlava praticamente toda a vida dos alemães. Preparamos uma lista com cinco livros para entender essa fase devastadora. Confira!

Nazismo-livros

1. A Gestapo

Com o intuito de transmitir e relatar informações preciosas que fizeram parte do passado de nossa civilização, A Polícia Secreta de HItler – A Gestapo é uma obra completa, composta de dois volumes com tudo o que você quer saber sobre a Gestapo. Neste primeiro volume, a Polícia é apresentada a partir da fundação até a atuação nos tempos de guerra e perseguição implacável aos judeus.

2. Holocausto – A estratégia de purificação racial de Hitler

Mais de sessenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o massacre de judeus pelo exercito nazista de Adolf Hitler continua a gerar controvérsia, apesar da farta e inquestionável documentação existente. Com o propósito de informar e alertar novas gerações dos horrores cometidos no passado por um regime de força, este livro é uma edição especial dedicada ao lado mais terrível do nazismo. O leitor encontrará um completo painel ilustrado sobre os campos de concentração e de extermínios; conhecerá os maiores carrascos nazistas; saberá sobre o Tribunal de Nüremberg; e muito mais sobre a terrível política racista de Hitler.

3. A Polícia Secreta de Hitler

A SS – Schutzstaffel – se expandiu de uma guarda de proteção pessoal para tropas de batalha, tornando-se uma força militar “particular”, de proporções sem precedentes até então, que lutaria com força total pelo ideal nacional-socialista, tornando-se um esquadrão de opressão, perseguição e morte. A Polícia Secreta de Hitler – A formação da SS e seu papel na Alemanha Nazista espelha toda essa irracionalidade do poder. Saiba sobre as origens, seu crescimento como organização paramilitar, sua fidelidade aos princípios nazistas, sua reestruturação como divisão de elite da repressão e limpeza ética, e sua participação nos crimes mais horrendos na tentativa de abrir caminho para a construção da “grande Alemanha”, para a instauração da “nova ordem européia”.

4. A Gestapo – A história secreta de Hitler 1933-1945 – Volume Único

O título aborda toda a estrutura de organização da política secreta nazista: os perfis dos líderes, métodos brutais e seu fim entre as ruínas de uma Alemanha nazista derrotada. Os relatos de testemunhas que revelam, em detalhes, as técnicas e os meios da Gestapo, com o uso rotineiro de informantes, tortura, execução e deportação para campos de concentração. Uma obra ilustrada com 120 fotos de personagens importantes, acontecimentos principais e vítimas dos 12 anos do reinado de terror da Gestapo.

5. Anjos e Safados no Holocausto

Com a ascensão do nazismo na Alemanha, uma das únicas maneiras de sair vivo era procurar exílio em outros países e até continentes. Diante desse cenário, a América Latina parecia ser o lugar ideal para na fuga já que dinheiro valia mais do que qualquer ideia antissemita ou embargos diplomáticos. Neste livro são relatadas histórias de latino americanos que ajudaram os alemães perseguidos por Hitler.

Em julho de 1944, após as forças soviéticas chegarem ao campo de trabalho forçado de Majdanek, próximo a Lublin, na Polônia, apesar de os alemães terem tentado esconder as evidências do extermínio em massa, tanto evacuando os prisioneiros por meio das longas marchas para a morte quanto demolindo algumas das estruturas do mal, como a empreitada continuou com a ajuda daqueles que lutavam contra os nazistas, o mundo assombrado acabou por conhecer as inimagináveis condições dos presos.

Na maioria dos campos, principalmente de extermínios, além de pilhas de corpos que não haviam sido enterradas, havia uma baixíssima percentagem de sobreviventes, que mais pareciam esqueletos ambulantes. Entre eles, embora todos sonhassem em retomar suas próprias vidas, poucos o fizeram. Mas graças a um lampejo de força coletiva, alguns apontaram, atacaram e até mataram seus próprios algozes como forma de revide por tanto sofrimento.

Em meio a esse contexto dramático, em 14 de abril de 1945, o fotógrafo Harold M. Roberts captou a Imagem para a História com a qual eternizou uma cena redentora: um prisioneiro soviético não identificado, mas com ar atônito, ao ser liberado pela 3ª Divisão Blindada do Primeiro Exército dos Estados Unidos do campo de trabalho forçado de Buchenwald, na Turíngia, Alemanha, teve o privilégio de identificar, diante dos aliados, um ex-guarda que espancava brutalmente todos os detentos locais. Se antes violento, no momento da foto, o nazista só conseguiu apresentar uma expressão perplexa, com um misto de medo e indignação, pois a partir dali, sabia que seu destino também oscilaria entre a vida e a morte, tal como o dos homens que molestara com suas próprias mãos.

Adaptado do texto “Algoz acuado”

Revista Leituras da História Ed. 94

Apesar de parecer lenda, esse episódio aconteceu de fato e foi amplamente documentado por autoridades locais, igrejas e médicos da época

O ano, 1518. A cidade, Estrasburgo, Alsácia, ainda parte do Sacro Império Romano – atualmente França. A desencadeadora? Uma mulher chamada Frau Troffea que, em meados de julho, saiu pelas ruas, dançando loucamente, sem esboçar nenhuma expressão de prazer. Contudo, seus gestos compassados se tornaram responsáveis por um dos fatos mais bizarros da história: a epidemia de dança.

 

Em seis dias de atividade quase que ininterrupta, em meio a desmaios rápidos de exaustão e retorno imediato aos movimentos, Frau morreu, provavelmente, com os sapatos encharcados de sangue. Algumas versões do episódio dizem que, após esse tempo, ela foi levada para um santuário de cura, mas não há provas sobre isso, principalmente porque nem mesmo um maratonista teria um preparado físico tão grande para aguentar tamanha empreitada. De qualquer forma, o curto período de tempo foi suficiente para contagiar outros habitantes da cidade, que também aderiram à dança. Documentos mostram que, em uma semana, já havia 30 deles fazendo passos cadenciados nas ruas de Estrasburgo. Em cerca de 30 dias, o número de participantes do estranho episódio, que se desenrolou debaixo do sol de verão do Hemisfério Norte, aumentou para cerca de 400 pessoas.

Mais detalhe sobre a A Dança da Morte

Diante da situação inusitada, tanto as autoridades locais quanto os médicos diagnosticaram “sangue quente”. Mas em vez de prescreverem, como era de costume, sangria para minimizar o problema coletivo, eles optaram por estimular a dança como forma de cura. Para tanto, eles contrataram músicos, improvisaram palcos e convidaram dançarinos especializados para auxiliar os contagiados, que continuavam dançando involuntariamente, apesar do desespero estampado em suas faces e dos pedidos de ajuda para que pudessem cessar com os movimentos corporais.

O resultado do tratamento foi trágico. Segundo relatórios médicos, muitas pessoas morreram de desidratação, exaustão, ataques cardíacos e derrames. Lendas dizem que os poucos sobreviventes – se é que houve algum – foram colocados a bordo de vagões e encaminhados para santuários de cura. Depois de quase dois meses de loucura, a tal epidemia começou a retroceder.

 

Embora curioso, o evento de Estrasburgo não foi o primeiro da História – problema idêntico já tinha ocorrido no século 12. Mas, desde então, algumas hipóteses foram levantadas para explicar o fenômeno. Entretanto, a maioria delas acabou descartada.

 

 

Hipóteses, apenas hipóteses…

Entre as especulações, uma que perdurou bastante tempo sugeriu que o evento estava associado ao possível consumo e um fungo altamente alucinógeno que crescia em meio ao centeio. Porém, se a explicação fosse realmente essa, de acordo com especialistas, o estado de alucinação não teria durado tantos dias.

 

Outra suposição, provavelmente levantada por seguidores da religião oficial, dizia que os dançarinos eram adeptos de uma seita herética. No entanto, quando os documentos da época começaram a ser analisados, ficou claro que os dançarinos estavam visivelmente perturbados.

 

O certo é que por 490 anos o episódio ficou sem uma explicação lógica. Mas, em 2008, o historiador John Waller, da Universidade de Michigan (Estados Unidos), descobriu certa ligação entre as epidemias que tinham acontecido ao longo da história e o possível motivo da dança da morte de Estrasburgo.

 

 

Uma elucidação mais plausível

Segundo Waller, a dança da morte e outras epidemias semelhantes sempre ocorreram após grandes provações, desastres naturais, pestes etc. Ao vivenciar tais situações, as pessoas ficavam – e ainda ficam – psicologicamente afetadas.

 

No caso da epidemia de 1518, uma série de doenças, como varíola, sífilis, lepra e até uma nova enfermidade conhecida como suor inglês (doença respiratória epidêmica, provavelmente causada por um hantavírus, que matou cerca de 3 milhões de pessoas somente na Inglaterra entre 1485 e 1551, enquanto fazia milhares de vítimas por toda Europa) havia varrido a região. Além disso, ainda havia a fome que levou muitos à mendicância e uma antiga lenda cristã sobre São Vitor (também chamado de São Vito ou São Guido), um siciliano martirizado em 303 d.C., que, caso fosse provocado, jogaria pragas no povo, entre as quais uma para que as pessoas dançassem compulsivamente até a morte.

 

Como todos esses fatores eram estressantes demais para qualquer ser humano já fragilizado, após estudar os registros históricos, notas médicas, sermões da igreja, crônicas locais e regionais e até mesmo comunicados emitidos pelo conselho da cidade de Estrasburgo, o historiador chegou à conclusão de que houve uma histeria em massa que levou muitos à morte.

 

 

Doenças sociais

Embora o episódio da dança contínua pareça muito estranho, durante o período medieval, houve pelo menos sete outros casos de histeria coletiva na mesma região. Depois, já em 1840, o evento se repetiu em Madagáscar (ilha africana). Em janeiro de 1962, na Tanzânia (pais da África Oriental), deu-se uma nova epidemia, dessa vez, de riso, que se prolongou por 18 meses (no início, as crianças começaram a rir sem motivo aparente na escola, depois contagiaram os pais, os vizinhos e, em pouco tempo, milhares de pessoas já estavam rindo, em meio a dores, dificuldades respiratórias e ataques de choro).

Todos esses casos forneceram subsídios para Waller fundamentar sua tese, que resultou em um livro de 276 páginas, intitulado A Time to Dance, a Time to Die: the Extraordinary Story of Dance Plague of 1518, publicado em 2008 (ainda sem tradução para o português). No entanto, conforme afirma o médico epidemiologista Timothy Jones,  professor clínico assistente de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de Vanderbilt  (Nashville, Tennessee, Estados Unidos), os surtos de doenças psicogênicas são suscetíveis de serem comuns e muitos passam despercebidos. Dúvida dessa informação? Então, preste atenção em alguns casos ocorridos no fim do século 20 e no início do século 21:

 

  • Região do lago Tanganyika, Tanzânia, África, 1963: diversas garotas de um internato começaram a alternar riso e choro histericamente. Em pouco tempo, 95 das 159 alunas tinham sido atingidas pela praga e a escola teve que ser fechada. Enviadas de volta para seus vilarejos, elas espalharam a epidemia entre outras crianças e adultos, que começaram a rir descontroladamente. Apesar de períodos curtos de calmaria, o problema durou quase oitos meses. Exames de sangue e análises microscópicas não apontaram uma causa biológica para a síndrome que, curiosamente, não atingiu adultos alfabetizados.

 

  • Ilha de Colares, Pará, Brasil, 1977: quase no fim do ano, surgiram relatos sobre luzes vindas do espaço para sugar o sangue humano. Os moradores locais ficaram impressionados e, rapidamente, surgiram várias pessoas que começaram a dizer que haviam sido perseguidas. Entre elas, mais de 80 reportaram sequelas físicas do que seriam ataques de ETs. A Aeronáutica destacou oficiais para investigar o caso que, quatro meses depois, foi encerrado.
    • Melbourne, Austrália, 2005: em 21 de fevereiro, uma funcionária do aeroporto local desmaiou, junto à escada rolante. Em seguida, outras duas mulheres também desfaleceram. O ar-condicionado foi desligado por medo de um atentado com gás, mas não adiantou nada. Mais pessoas passaram mal e 57 foram levadas para o hospital. Porém, não foi detectada nenhuma ação de agente tóxico. No fim do dia, o mistério foi revelado: uma parede e um poste pintados recentemente exalavam cheiro de tinta fresca. Ambos fizeram com que as primeiras mulheres tivessem enjoo. Posteriormente, os discursos que se seguiram de boca em boca enfatizavam gás tóxico, perigo, química, entre outras preposições. Portanto, o disse me disse foi suficiente para induzir uma descompensação coletiva.

     

    • Cidade do México, México, 2006: o surto se iniciou em outubro e atingiu meninas de um internato católico que, ao mesmo tempo passaram a ter fraqueza, dificuldade de locomoção, febre, náuseas e desmaios. No retorno das férias, o mal se espalhou ainda mais. No total, 600 das 3600 internas tiveram sinais da doença que, segundo as autoridades, não tinha nenhuma causa orgânica.

     

    • Itatira, Ceará, Brasil, 2010: no início  de junho, após uma suposta visão de um colega morto, dezenas de jovens começaram a passar mal em uma escola. Entre eles, muitos entraram em transe e tiveram que ser levados para o hospital.
      • Zimpeto, Maputo, Moçambique, 2010: entre maio e junho, 71 alunas da Escola Quisse Mavota perderam os sentidos durante as aulas. Em um único dia, foram 25 casos. As primeiras hipóteses levantadas pela direção do colégio foram anemia ou desnutrição. Mas, desde o início, o Ministério da Saúde sustentava ser algo psicológico. De acordo com o que a psiquiatra Lídia Gouveia (na época, diretora da Seção de Saúde Mental) disse na ocasião, “o quadro de medo e de ansiedade [das meninas] é muito marcante. O que elas têm, realmente, são manifestações de pânico”. Ainda segundo a médica, em vários casos não houve sequer desmaio, mas apenas a perda momentânea dos sentidos. Apesar desse episódio, na África, epidemias semelhantes são bem comuns. Na foto, por exemplo, 50 alunas da escola do primeiro ciclo Gabriel Kwanhama desmaiaram em julho de 2011 sem explicação aparente.

       

      • Phu Yen, Vietnã, 2011: em dezembro, após a visão de um suposto fantasma no banheiro da escola Son Hoa, vários alunos começaram a desmaiar, momentos em que também diziam coisas ininteligíveis. Em apenas uma noite, 12 deles caíram inconscientes ao mesmo tempo.

       

      De certa forma, todos esses exemplos compartilham determinados aspectos: um relativo analfabetismo, pobreza e medo; superstições alimentadas por crenças populares; desinformação; e até confinamento imposto (no caso dos internatos). Nesse contexto, impulsionados pela cultura local ou pela própria imaginação, pessoas ou grupos fechados ficam mais ansiosos, perdem o controle dos atos e das emoções, ressaltam os cinco sentidos e começam a apresentar sintomas físicos. A partir daí, eles provocam o chamado efeito dominó na coletividade, que também passa a fazer, ver, sentir e vivenciar o mesmo acontecimento de forma irracional.

Era, nas palavras de Neil Armstrong, “um pequeno passo para o Homem, um passo gigantesco para a Humanidade”

No dia 20 de julho de 1969, a Apolo 11 pousava na Lua. Era, nas palavras de Neil Armstrong, “um pequeno passo para o Homem, um passo gigantesco para a Humanidade”. Apesar da existência de dúvidas sobre o original significado da fala do astronauta, as aspas geralmente atribuídas à ele retratam bem a grandiosidade do feito.

Foi em um domingo na Terra que o comandante Armstrong e o piloto Edwin Aldrin, ou Buzz, ambos com 38 anos de idade, escorregaram para fora da Apollo 11 em seus trajes espaciais reforçados com 21 camadas de tecido rumo ao acontecimento que colocaria seus nomes na História. Em uma gravidade quase 10 vezes menor que a da Terra, os dois homens desajeitadamente se locomoviam pela região lunar batizada de Mar da Tranquilidade. “Adere à sola e aos lados das minhas botas, formando uma camada fina como poeira de carvão”, Armstrong descrevia o solo da Lua à base de controle.

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Uma placa acoplada a um dos pés do módulo Eagles, onde eles viajavam, trazia a frase “Aqui, homens do planeta Terra pisaram na Lua pela primeira vez. Nós viemos em paz, em nome de toda a humanidade”, lida também pelo comandante. Buzz uniu-se a Neil e juntos fincaram a bandeira estadunidense no solo lunar.

O evento foi todo transmitido e o mundo parou diante dos aparelhos de televisão para acompanhar os passos dos dois astronautas. Famílias se reuniram na sala, grupos se amontoaram em bares, padarias ou qualquer lugar com TV, as ruas ficaram desertas. Todos queriam participar desse momento histórico. E você, se lembra o que estava fazendo quando o homem pisou na Lua?