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Câmara Cascudo, explicador do Brasil e dos brasileiros

Câmara Cascudo, explicador do Brasil e dos brasileiros

Luiz Henrique Gurgel

Monteiro Lobato discutiu com ele as primeiras páginas de Reinações de Narizinho. Drummond o definiu como “uma pessoa em dois grossos volumes, em forma de dicionário que convém ter sempre à mão, para quando surgir uma dúvida sobre costumes, festas, artes de nosso povo”. As duas referências dizem respeito à mesma pessoa: Luís da Câmara Cascudo, um dos mais famosos explicadores da ‘alma brasileira’, incansável pesquisador de nossa cultura popular. É autor de obras clássicas para entender o Brasil e os brasileiros. Entre elas o Dicionário do Folclore Brasileiro (1954), a História da Alimentação no Brasil (1967), História de Nossos Gestos (1976), Locuções tradicionais do Brasil (1970), Coisas que o povo diz (1968) e muitos outros.

Menino rico, nasceu em Natal (RN) em 30 de dezembro de 1898, filho do comerciante mais abastado da cidade, um ex-militar que perseguiu cangaceiros. A mãe, descendente de aristocratas, sabia piano e falava francês. O garoto passou infância cheia de mimos, cuidados e proibições. Já havia perdido três irmãos por conta de doenças. “Fui menino magro, pálido, enfermiço, cercado de dietas e restrições alimentares. Não corria. Não saltava. Nunca pisei areia nem andei descalço. Jamais subi a uma árvore. Cuidado com fruta quente, sereno, vento encanado!”, relata em O Tempo e Eu (1968). Permaneceu amarrado aos livros, colecionava estampas de santos e histórias. Foi o primeiro menino da cidade a possuir biblioteca. Na adolescência veio o contato com o sertão. O jovem de dezesseis anos começa a anotar tudo o que vê: causos, cantigas, lendas, receitas. “Vivi no sertão típico, agora desaparecido. Cortei macambira e xique-xique para o gado nas secas. Banhei-me nos córregos ao inverno. Peguei tatus de noite, com fachos e cachorros amestrados”, conta em Vaqueiros e Cantadores (1939).

Rosário com Patuá

O jovem elegante, de modos aristocráticos, professor do mais importante colégio de Natal, apaixonou-se pela cultura popular, algo inadmissível para um filho da elite. “Um colega de magistério pediu minha demissão ao governador Juvenal Lamartine porque era indignidade um professor do Ateneu Norte Riograndense andar indagando Lobisomem e estudar Catimbó, enrolado com os mestres e os juremais miríficos” (Voz de Nessus, 1966).

Em 1918, ganha um jornal do pai: A Imprensa, onde publica os primeiros textos. Aventura-se pelo submundo como repórter, acompanha batidas da polícia em terreiros de candomblé e prostíbulos – novas fontes para sua coleção de histórias. Monarquista e católico, trazia sempre rosário no bolso, devidamente acompanhado de um patuá.

Mas foi Mário de Andrade, amigo e confidente, com quem trocou dezenas de cartas entre 1924 e 1945, quem o estimulou para as pesquisas. Mário sugeriu a Cascudo que abandonasse seu “ânimo aristocrático”, instigando-o a “descer da rede” e prestar atenção à “riqueza folclórica” que passava a sua porta. Cascudo ficou profundamente afetado pela carta do amigo e começaria a escrever sem parar.

Viajou pela Europa, África e Brasil atrás de nossas referências. Consultou arquivos mundo afora, professores estrangeiros. Descobriu vínculos entre velórios do sertão e costumes do antigo Egito; histórias das Mil e Uma Noites recontadas por sua ama, analfabeta; lendas medievais europeias nos folhetos de cordel. De tudo o que aprendeu, “60% foi ouvindo e 40% lendo”. Reafirmava: “os anos vividos no sertão do Rio Grande do Norte foram cursos naturais de literatura oral”. Foi a campo, misturava-se ao povo e ouvia pescadores, amas-de-leite, ex-escravos, cantadores, “tudo o que era negado pelo letrado, esquecido pelo professor, ironizado pelo viajante”.  Correspondendo-se com estudiosos do Brasil e do mundo – seu arquivo possui 27 mil cartas – fazia perguntas prosaicas: “Como se diz ´amarelinha` na tua cidade?” Foi assim que descobriu que o nome da brincadeira, no Rio e em São Paulo, derivava do francês marelle; em Portugal e no Nordeste brasileiro era conhecida por “academia”. Na Bahia, “pular macaco” e em Minas,“maré”. Era genial observador do jeito do homem dormir, andar, falar e comer.“Quando comecei escrever sobre rede de dormir, todo mundo me chamava de louco. Hoje, meu trabalho Rede de Dormir (1967) já foi publicado até em japonês.” Investigava a razão das nossas ações mais triviais e sobre as quais quase ninguém se indaga no cotidiano: “Por que hoje ainda apertamos a mão? Por que o homem não inventou outra forma de aplaudir? Já se aplaudia assim nas civilizações mais antigas. São heranças milenares de um primitivismo que permanece nas civilizações ultramodernas.”

Lembrando que o homem pôs primeiro o pé direito ao descer na lua, dizia, “Dispensável é qualquer discussão sobre permanência do folclore no tempo e no espaço. Há um folclore dos astronautas como há dos motoristas de automóvel. Consta que a nave que desceu na Lua carregava uma figa protetora. Inútil será pensar que o desenvolvimento industrial anulará o folclore. Fará nascer outro.”

O “provinciano incurável”, como gostava de se definir, jamais abandonou Natal. Oxford rendia-lhe homenagens. Juscelino Kubitschek o queria reitor da Universidade de Brasília. Sorbonne e USP, como professor. Preferiu continuar lecionando na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Cascudo morreu a 30 de julho de 1986.

Fonte: http://escrevendo.cenpec.org.br/index.php?view=article&catid=15%3Adicas-culturais&id=1375%3Acamara-cascudo-explicador-do-brasil-e-dos-brasileiros&option=com_content&Itemid=43

Sobre Remisson Aniceto

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